
Quando soube que o diretor Babak Anvari lançaria seu novo filme, “Hallow Road”, estrelado por Rosamund Pike (“Garota Exemplar”) e Matthew Rhys (“The Americans”), minha curiosidade foi imediata. Primeiro, porque admiro muito os dois atores; segundo, porque já havia gostado de “Passei Por Aqui”. Ainda que não seja uma obra-prima, aquele filme se mostrou ousado e competente dentro de sua proposta, além de fugir dos padrões narrativos esperados, algo que sempre me atrai — mesmo quando divide opiniões. Dito isso, Anvari demonstra ainda mais ambição neste projeto, que aposta em uma tensão crescente confinada dentro de um carro, recurso já explorado com força em outras produções ambientadas em um único espaço, como o dinamarquês “Culpa”.
Acompanhamos Maddie (Rosamund Pike), uma paramédica em depressão, e seu marido Frank (Matthew Rhys), um casal galês de meia-idade que enfrenta um drama familiar: ]a filha adolescente, Alice (Megan McDonnell), foge de casa após uma discussão acalorada. Pouco depois, Maddie recebe uma ligação desesperada da jovem, que afirma ter atropelado uma garota em uma estrada chamada Hallow Road. Tomados pelo pânico, os pais entram no carro em busca da filha, tentando encontrá-la antes que a situação saia totalmente do controle. Presa no carro, ela conversa com os pais, enquanto a mãe tenta orientá-la de longe sobre como reanimar a vítima.
Ainda que a premissa seja simples, o filme se torna progressivamente mais intrincado à medida que o diretor evita oferecer respostas fáceis, conduzindo o espectador a refletir sobre duas interpretações possíveis que, embora distintas, revelam igual riqueza de debate. Trata-se de uma obra que se recusa a ser decifrada de imediato e que encontra sua força justamente na pluralidade de leituras que suscita.
Conforme a conversa dentro do carro avança entre os pais e a filha em pânico após o atropelamento, Maddie começa a perceber que talvez a versão de Alice não seja exatamente como ela descreve. A desconfiança cresce e, em meio a essa crise de confiança, também se instala uma tensão latente entre o casal, que precisa lidar com o peso da situação enquanto corre contra o tempo para encontrar a filha. A paranoia e o medo se intensificam até que Frank, em um gesto de desespero e proteção paterna, sugere assumir a culpa pela tragédia para salvar o futuro de Alice, ameaçado de ruir. No entanto, a situação só piora: o GPS falha, e em meio à confusão, Alice acredita ter visto o carro dos pais. Ela se aproxima, mas acaba se deparando com outro veículo — e, para complicar ainda mais, surge uma mulher misteriosa que transforma o cenário em algo ainda mais perturbador.
O trabalho de câmera de Babak Anvari é notável pela forma como explora a espacialidade restrita do carro para potencializar a tensão dramática. O diretor aposta em planos fechados que isolam os personagens, sublinhando o confinamento físico e psicológico a que estão submetidos. Quando o thriller psicológico passa a flertar com um conto de fadas sombrio, há uma mudança perceptível na direção.
A alternância entre enquadramentos frontais e oblíquos estabelece um jogo de poder visual, enquanto os ângulos levemente distorcidos funcionam como recurso expressivo para traduzir não apenas o desequilíbrio emocional dos personagens e a crise que se intensifica na narrativa, mas também a própria sensação de loucura da situação — deixando o espectador tão desnorteado pelas informações quanto eles.
A fotografia de Kit Fraser complementa essa construção com uma abordagem precisa da iluminação noturna. O uso das fontes internas do veículo — faróis, painéis e reflexos externos — serve como elemento diegético que modela os rostos em gradações de luz e sombra. Esse tratamento na ilumição não apenas acentua a textura emocional das cenas, mas também sugere, no nível estético, a instabilidade psicológica dos personagens, que oscilam entre a desesperança, o medo e a paranoia.
A escalação do elenco se mostra extremamente acertada. Rosamund Pike impressiona ao conduzir sua personagem em uma curva de instabilidade emocional cada vez mais intensa, até culminar em uma revelação devastadora sobre erros do passado e as consequências que marcaram sua vida. Já Matthew Rhys entrega um desempenho igualmente poderoso, explodindo em momentos de tensão e revelando um pai disposto a tudo pela filha. Sua tentativa constante de corrigir a situação, mesmo diante da resistência de Maddie, evidencia não apenas sua vulnerabilidade, mas também a fragilidade de um homem que oscila entre o instinto de proteção e o desespero de encarar a dura realidade que se impõe.
Se “Hallow Road” já seria bem-sucedido apenas ao se concentrar no thriller psicológico — graças à intensidade da situação, à tensão conjugal e à tragédia que envolve o acidente da filha —, ao optar por um desvio inesperado mrumo ao terror sobrenatural o filme ganha ainda mais fôlego, instigando nossa imaginação diante do desconhecido. O desfecho, por sua vez, recusa a univocidade. Cabe ao espectador optar por uma interpretação racional, ancorada nos elementos psicológicos que atravessam a trama, ou abraçar a dimensão sobrenatural, próxima de um terror folclórico que ressignifica os eventos anteriores.
Essa ambiguidade não é falha, mas sim a força do filme: o roteiro e a direção arquitetam uma narrativa que tensiona fronteiras entre realidade e delírio, entre o concreto e o mítico. O resultado é uma experiência estética e sensorial que, em vez de oferecer respostas fáceis, convida à reflexão — deixando a mente do espectador fritando após os créditos finais, que revelam um detalhe crucial para orientar a conclusão entre as duas possíveis leituras.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Hallow Road
📺 Onde assistir: Eppi Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ (10/10) Excelente
Direção: Babak Anvari
2025 ‧ Thriller/Terror Psicológico ‧ 1h 20m