
“A Noite Sempre Chega” é o novo thriller da Netflix, estrelado pela excelente Vanessa Kirby, que já havia brilhado no drama original da plataforma “Pieces of a Woman”. Agora, a atriz retorna em um suspense dirigido pelo mesmo cineasta de “Sharper: Uma Vida de Trapaças”. Neste novo trabalho, o diretor foca seu olhar para a desigualdade social nos Estados Unidos, com ênfase nas tensões do estado da Califórnia.
O filme inicia com uma visão devastadora desse lugar dominado por moradores de rua, enquanto jornalistas na televisão discutem o ódio que os americanos nutrem contra os pobres — e até mesmo como os próprios pobres se voltam uns contra os outros. É nesse cenário desolador que acompanhamos Lynette (Vanessa Kirby), uma mulher à beira do colapso, tentando salvar sua vida e a de sua família.
Prestes a ser despejada junto do irmão, Lynette busca um empréstimo que exige a presença da mãe. A recusa da mãe em ajudá-la, somada à revelação de que vinha gastando o dinheiro da família em um carro, amplia a sensação de abandono e desespero. Sem apoio, Lynette recorre a Kenye, um homem em quem acreditava poder confiar para conseguir ajuda financeira, mas acaba duramente surpreendida quando ele despreza sua situação e a reduz a uma negociação humilhante: sexo em troca de dinheiro. A cena, filmada sob uma iluminação sombria, traduz visualmente a degradação emocional da personagem e o mergulho cada vez mais profundo em seu desamparo.
A espiral de frustração não para por aí. Tentando recuperar um valor emprestado a uma amiga, Lynette recebe mais uma rejeição dura e, sem saída, decide invadir um cofre. Para isso, recorre a um colega de trabalho ex-presidiário, mas o plano rapidamente foge do controle. O roubo expõe Lynette a perseguições, confrontos violentos e uma sucessão de erros que culminam em rupturas dolorosas. Entre fracassos e humilhações, o filme revisita ainda um trauma do passado, quando Lynette reencontra um homem mais velho com quem se envolveu aos 16 anos. O desprezo dele funciona como gatilho, reforçando o peso insuportável de uma vida marcada por escolhas ruins, abandono e repetição de padrões destrutivos.
Além disso, novos personagens surgem na narrativa apenas para intensificar as situações sufocantes da protagonista, mas a forma abrupta como o roteiro os descarta torna tudo ainda mais frágil. Um exemplo é o colega de trabalho, que repentinamente muda de comportamento e tem um surto dentro do carro. Não que tal reação fosse impossível — especialmente em um contexto que envolve dinheiro —, mas é a forma como o roteiro e a direção executam essa virada que compromete a credibilidade dos acontecimentos.
O problema se estende à dramaticidade das situações, que se acumulam em sequência ao longo de uma única madrugada. Torna-se difícil acreditar que tantos eventos extremos ocorreriam de forma tão concentrada. Além disso, o roteiro insiste em forçar circunstâncias apenas para reforçar o quão dura é a vida da protagonista — algo que já havia sido transmitido de maneira convincente na primeira hora de filme. A mensagem poderia ter sido desenvolvida de forma mais refinada e menos apelativa, sem recorrer a tantos artifícios. Um filme que aborda despejos e crises financeiras com coesão dramática e contundência realista é “99 Casas”, do diretor Ramin Bahrani.
Essa fragilidade não é inédita no trabalho do diretor. Assim como em “Sharper: Uma Vida de Trapaças”, o excesso de situações improváveis compromete a força do enredo. A diferença é que lá a trama abraçava o absurdo como estilo, convidando o espectador a entrar no jogo. Já em “A Noite Sempre Chega”, ao lidar com a miséria e o desespero de pessoas comuns, o exagero soa artificial, diminuindo o impacto dramático e afastando o espectador da dor autêntica que deveria mover a narrativa.
Ainda assim, quem sustenta o filme é a atriz Vanessa Kirby, que convence em cada reviravolta da trama. Por mais forçadas que algumas situações possam parecer, ela transmite com verdade a sensação de alguém que realmente estaria vivendo aqueles dilemas.
A direção de Benjamin Caron também é competente, sobretudo na primeira hora, quando constrói um thriller envolvente e atmosférico. O problema está no roteiro de Sarah Conradt (“Instinto Materno”), que não consegue manter a mesma solidez ao longo das duas horas de duração.
Confira o trailer:
🍿 Filme: A Noite Sempre Chega (Night Comes On)
📺 Onde assistir: Netflix
⭐ Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.5/10) Bom
🎬 Direção: Benjamin Caron
2025 ‧ Thriller/Drama Social ‧ 2h