
O filme “A Longa Marcha” é uma adaptação do livro homônimo lançado em 1979, escrito por Stephen King sob o pseudônimo Richard Bachman. Pouca gente sabe, mas essa foi uma das primeiras histórias que o autor escreveu — ainda no fim da década de 1960, quando estava na faculdade —, publicada apenas anos depois sob o pseudônimo. A obra faz parte de uma coletânea de contos sombrios, que revelam o lado mais pessimista do escritor.
A história se passa em uma versão distópica dos Estados Unidos, sob um regime militar totalitário. Anualmente, acontece um evento brutal chamado “A Longa Marcha”, no qual adolescentes participam de uma competição mortal. São selecionados cinquenta jovens de diferentes estados para caminhar sem parar por centenas de quilômetros. Eles recebem água e mantimentos, mas devem manter um ritmo mínimo: caso parem ou diminuam demais a velocidade, recebem avisos. Três avisos são o limite — no quarto deslize, o participante é executado pelos soldados que acompanham a jornada. A Marcha só termina quando restar um único sobrevivente. Esse vencedor recebe uma grande quantia em dinheiro e pode escolher um desejo.
A direção de Francis Lawrence, conhecido por quatro filmes da franquia “Jogos Vorazes”, não poderia ser mais acertada. Ele já domina a construção de mundos distópicos e a lógica de jogos mortais, mas aqui o caminho é outro: não há jovens se rebelando contra o sistema, e sim uma narrativa mergulhada em pessimismo e a fatalidade. O terror não vem da revolta, mas da constatação de que não há saída possível, apenas a resistência física e emocional diante de uma prova cruel e brutal.
Um dos pontos altos é observar como os atores traduzem em tela a mudança gradual de seus personagens. Se no início ainda havia otimismo e a crença de que poderiam vencer, isso vai se desmanchando a cada quilômetro. É quase uma metáfora das guerras: jovens que entram acreditando em glória e heroísmo, mas descobrem cedo que a realidade é muito mais dura e cruel.
Entre todos os competidores, o foco recai sobre Ray (Cooper Hoffman) e Peter (David Jonsson), que constroem uma amizade inesperada e emocionante. Essa relação funciona como respiro no meio do horror, lembrando ao espectador que, mesmo cercados de crueldade e morte, ainda resta humanidade. Em contrapartida, personagens como Gary Barkovitch (Charlie Plummer) trazem uma camada extra de tensão, pois tornam a própria convivência entre os competidores tão perigosa quanto os soldados que vigiam a marcha, liderados pelo Major, interpretado por Mark Hamill — que entrega uma atuação caricata, mas eficaz dentro da lógica de fantasia desse terror —, os personagens enfrentam uma jornada que evidentemente ultrapassa qualquer verossimilhança de caminhar dias a fio sem pausa.
A experiência de acompanhar o filme é sufocante. Ver o ser humano em seus limites físico e psicológico é sempre angustiante — e, mesmo para fãs de terror, não se trata de violência gratuita. Aqui, a brutalidade serve a uma narrativa maior, que fala sobre desesperança, resistência e laços humanos. O longa não se limita à contagem de corpos; ele utiliza a distopia para refletir sobre um mundo cruel, mas em que a fagulha da esperança insiste em sobreviver.
O filme também dialoga fortemente com a realidade: o regime militar que organiza a Marcha, e ecoa governos autoritários que transformam a violência em espetáculo, como no Império Romano. Ao mesmo tempo, a metáfora é clara em relação à juventude: jovens empurrados até a exaustão em busca de aprovação e sobrevivência, seja em guerras, seja em sistemas que esmagam suas individualidades. O público que assiste e aplaude a Marcha é um reflexo de nós mesmos, consumidores passivos de violência em diferentes formatos — das transmissões de guerra aos reality shows.
“A Longa Marcha” é mais do que um thriller distópico; é um retrato incômodo sobre poder, violência e a fragilidade da esperança humana. A engenhosa direção de Francis Lawrence guia a narrativa com ritmo tortuoso (no melhor sentido), enquanto a fotografia precisa e opressiva de Jo Williems amplia a sensação de exaustão e clausura. A trilha sonora, composta por Jeremiah Fraites, equilibra tensão e melancolia, dando corpo ao sofrimento dos personagens. O resultado é um filme poderoso e perturbador, que transcende a distopia para se tornar um espelho da nossa própria realidade — e um lembrete cruel de que, mesmo no meio da escuridão, ainda buscamos conexão e sentido.
Confira o trailer:
🍿 Série: A Longa Marcha (The Long Walk)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.5/10) Ótimo
Direção: Francis Lawrence
2025 ‧ Terror ‧ 1h48m