
É evidente que “Uma Batalha Após a Outra” é um espetáculo visual e demonstra competência em todos os seus aspectos técnicos. No entanto, ao contrário de muitos críticos que o consagram como obra-prima apenas por suas intenções nobres e pelos temas relevantes que aborda, a minha experiência com o filme segue em outra direção. Já comentei algumas vezes que boas intenções não garantem, por si só, uma experiência cinematográfica perfeita. Um filme pode tratar de questões extremamente importantes e ainda assim estar sujeito a críticas negativas ou, no mínimo, mais contidas, como é o meu caso. A minha experiência foi bastante positiva, mas distante da euforia que domina a maioria das análises.
Os mesmos que afirmam que o longa de Paul Thomas Anderson é capaz de definir um século talvez se esqueçam de obras igualmente relevantes, como “Sem Identidade”, “Beasts of No Nation”, de Cary Fukunaga, ou “Minari”, de Lee Isaac Chung. Não que eu considere esses filmes que melhor representam o século, mas todos abordam temáticas como imigração, poder, manipulação e o silêncio da comunidade internacional. Vale lembrar que “Minari”, em seu lançamento, também foi amplamente aclamado e chegou a receber uma indicação ao Oscar — e, ainda assim, hoje quase não é lembrado em muitas discussões.
“Uma Batalha Após a Outra” é uma adaptação de “Vineland”, romance de Thomas Pynchon. O cineasta toma a liberdade de alterar bastante a obra original, mas preserva a essência satírica e o teor político que marcam o livro. Ao optar por uma narrativa mais linear e menos fragmentada que a de Pynchon, Anderson torna a história mais acessível, mas em parte abre mão da densidade caótica que era característica da literatura do autor.
O longa já se apresenta em sua abertura como um filme de intenções grandiosas. A revolução French 75, liderada por Bob (Leonardo DiCaprio) e sua companheira Perfídia (Teyana Taylor), é filmada com energia, estabelecendo um tom de urgência política. A promessa inicial é de uma narrativa sobre imigração, racismo e resistência — pautas atuais e relevantes. Contudo, à medida que a trama avança, essa ambição cede espaço a perseguições pessoais e rivalidades familiares, gerando uma tensão entre discurso social e drama íntimo.
O diretor como de costume, demonstra domínio técnico. Basta lembrar de “Sangue Negro” ou “Trama Fantasma” para reconhecer que se trata de um diretor que não erra na direção. Sequências como o assalto ao banco seguido por uma perseguição de carro revelam um olhar dinâmico para a ação: a câmera em movimento, aliada ao uso de drones sobrevoando a cidade, gera uma adrenalina comparável a grandes thrillers contemporâneos. Inclusive, eu acho que “Sangue Negro” explorava temas políticos com muito mais força do que o novo longa do diretor, ao mostrar o capitalismo selvagem, a disputa entre religião e poder econômico, o individualismo que destrói comunidades e a corrupção do chamado “sonho americano”. Inclusive, se eu fosse escolher um filme que melhor define este século, provavelmente seria “Sangue Negro”.
Em “Uma Batalha Após a Outra”, o diretor continua provando a sua expertisse na técnica, ao manipular sentidos em diversas cenas, e oscilar entre gêneros com naturalidade. Um exemplo está no primeiro ato, quando Steven (Sean Penn) flagra Perfídia no banheiro instalando uma bomba.
O enquadramento estático da câmera, aliado ao silêncio, cria uma tensão sexual inesperada. Esse detalhe mostra como Anderson arrisca cruzar sensações distintas em um mesmo quadro, mesclando suspense, erotismo e política de forma ousada.
E a trilha de Jonny Greenwood, colaborador frequente do diretor, é outro elemento de destaque. Algumas composições são poderosas e emocionantes, como a faixa-título ou Perfidia Beverly Hills. Outras funcionam como homenagens a diferentes gêneros: French 75 imprime um tom hitchcockiano, enquanto Mean Alley evoca o faroeste. Já em Ocean Waves, os acordes repetitivos intensificam a inquietude, mas o uso excessivo acaba cansando. Em vez de sustentar a atmosfera, a música por vezes a sufoca, tirando o espectador da experiência.
O elenco é recheado de nomes de peso. Leonardo DiCaprio, que em “O Lobo de Wall Street” explorou com eficácia o humor ácido, aqui não encontra o mesmo equilíbrio: sua performance por vezes parece mais calculada do que espontânea, especialmente na cena do telefonema, que soa como uma tentativa explícita para premiação. Sean Penn, por outro lado, entrega um de seus melhores papéis em anos. Sua interpretação de um extremista beira o caricato, mas essa caricatura funciona dentro da lógica satírica proposta pelo filme. Benicio Del Toro, que surge apenas após o salto temporal de dezesseis anos, reforça a gravidade dramática da trama e traz densidade ao terceiro ato.
Regina Hall surpreende. Conhecida por papéis cômicos como Brenda em “Todo Mundo em Pânico”, ela impressiona ao dar vida à complexa Deandra em seu primeiro grande trabalho dramático. Já Teyana Taylor, como Perfídia, entrega uma personagem de múltiplas camadas — dividida entre maternidade, insegurança e desejo de reconhecimento. Sua saída precoce da trama, no entanto, deixa um vazio — sua presença oferecia um contraponto instigante. Mas a jovem atriz Chase Infiniti, desempenha um grande papel que consegue sustentar a ausência de Teyana Taylor.
Embora “Uma Batalha Após a Outra” traga no centro do discurso questões urgentes como imigração, racismo e desigualdade, a forma como o diretor as aborda resulta em uma ambivalência curiosa. A direção grandiosa e os diálogos inflamados criam a sensação de que o filme está dialogando com o presente, mas conforme o roteiro se concentra nas disputas familiares, o impacto social prometido se dilui. Surge a dúvida: trata-se de um comentário político consistente ou apenas de um pano de fundo conveniente para o melodrama?
Ainda assim, não se pode negar a força da belíssima perseguição no ato final. A câmera acompanha os personagens em enquadramentos que misturam velocidade e contemplação, criando um retrato vibrante do thriller — gênero que Paul Thomas Anderson conduz com maestria. Ao mesmo tempo, o filme se arrisca a oscilar entre thriller, drama, comédia e western. E, de forma surpreendente, essa mistura funciona às vezes, reforçando a habilidade do diretor em manipular tons distintos sem que um anule o outro.
“Uma Batalha Após a Outra” é um filme de contrastes. Começa como manifesto político, mas se converte em espetáculo de ação. Oferece atuações intensas, insere comentários sociais, mas prefere acaba sendo reduzido ao um melodrama familiar. Se “Sangue Negro”, o diretor expôs com ferocidade o capitalismo selvagem, a corrupção moral e a disputa entre religião e poder econômico, aqui o diretor parece interessado em testar até onde consegue cruzar gêneros e estilos sem perder a mão. Há momentos em que esse risco compensa — como nas perseguições filmadas com maestria — e outros em que a ambição escorrega, enfraquecendo a densidade prometida no início. Ainda assim, é um filme que merece ser visto e debatido, porque sintetiza bem a dualidade de nosso tempo: a tentativa de equilibrar engajamento social e espetáculo, discurso político e entretenimento popular.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another)
📺 Onde assistir: Cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10) Muito bom
Direção: Paul Thomas Anderson
2025 ‧ Comédia/Thriller ‧ 2h50m