“Monstro: A História de Ed Gein” é a pior coisa que o Ryan Murphy já produziu

Quando anunciaram que a terceira temporada seria sobre o infame Ed Gein, eu fiquei imediatamente empolgado. A expectativa era alta, ainda mais com a promessa de estreia apenas um ano após a segunda temporada, que abordou o assassinato dos pais dos irmãos Menendez. Mas talvez eu devesse ter desconfiado: produzir uma nova temporada em tão pouco tempo dificilmente seria um bom sinal, especialmente porque apesar de achar a segunda temporada ótima como um entretenimento, os problemas habituais do Ryan Murphy já davam sinais. Entre a primeira — excelente — temporada sobre Jeffrey Dahmer e a segunda, houve um intervalo de três anos, tempo suficiente para desenvolver uma narrativa consistente e uma direção cuidadosa. Já essa pressa em lançar a história de Ed Gein acabou se refletindo no resultado final: ficou claro que o curto intervalo não fez bem à série. O que se vê é uma temporada apressada, sem a mesma profundidade ou impacto das anteriores, e outros diversos problemas. É, sem dúvida, a mais fraca da antologia Monstros— e, arrisco dizer, uma das piores séries sobre crimes reais que já assisti.

    O primeiro episódio de “Monstros: A História de Ed Gein” exibe um valor de produção evidente — e ainda bem, porque sem isso seria uma catástrofe completa. A série se apoia em aspectos técnicos competentes, como fotografia, figurino e trilha sonora, mas tropeça justamente onde deveria prender o espectador: no desenvolvimento narrativo. O desenrolar da história é morno, sem ritmo ou empolgação, sustentando o interesse apenas pela curiosidade de como ele faria tudo aquilo que conhecemos, e em torno da relação de Ed com sua mãe, vivida pela excelente Laurie Metcalf. Mas essa curiosidade vem por parte da história real, e não da maneira que a série é construída.

    Enquanto a veterana atriz entrega uma performance sólida e inquietante, a atuação de Charlie Hunnam é um dos pontos mais problemáticos. A escolha de alterar a voz do personagem — algo que o próprio ator admitiu ter criado por conta própria — acaba tirando o peso e a ameaça de um homem responsável por atrocidades, transformando-o em uma figura quase caricata, reclusa e praticamente indefesa. E ao acompanharmos a reta final da temporada, fica evidente que essa escolha criativa tinha como propósito claro construir uma espécie de redenção para a figura de Ed Gein.

    Um dos maiores problemas é a forma como as cenas explícitas são conduzidas. Sequências que deveriam causar desconforto acabam soando apenas de mau gosto. A necrofilia, por exemplo, é mostrada de maneira gratuita, sem a sutileza que a primeira temporada dominava tão bem. E sem mencionar que, desta vez, Ryan Murphy extrapolou algo pelo qual já havia sido criticado anteriormente — e que, até então, eu discordava: a sexualização e romantização desses criminosos. Mas parece que, dessa vez, ele resolveu fazer exatamente o que o acusavam, quase como uma resposta direta às críticas.

    Não havia absolutamente nenhuma necessidade de mostrar as nádegas de Charlie Hunnam em uma cena de relação sexual com um cadáver. Talvez em um filme de terror B isso fosse aceitável, mas aqui, em uma série criminal que deveria explorar a psique humana e o impacto social dos crimes, o resultado soa apenas vulgar e gratuito. Eu esperava um pouco mais de sofisticação e profundidade, não um choque visual pelo choque em si. No caso de Dahmer, bastava uma sugestão para o público sentir o peso da monstruosidade — e como já disse Steven Spielberg, “o que não vemos é o que realmente assusta”. Aqui, o excesso de exposição esvazia o terror.

    O segundo episódio, focado nos bastidores de Psicose, até traz uma ideia interessante ao conectar a história real com o cinema, mas a caracterização de Alfred Hitchcock é simplesmente terrível e caricata, destoando do tom sombrio que a série estava mantendo. A temporada parece perdida entre tantas ideias. Há tentativas de abordar o nazismo, o antissemitismo, o impacto cultural dos crimes e até os filmes que Gein inspirou como “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Silêncio dos Inocentes”, mas tudo isso rouba tempo daquilo que realmente importava: compreender a mente do assassino e a complexidade do caso.

    E eu, como grande fã de filmes de terror, não ter gostado dessa temporada — e nem mesmo as referências aos clássicos do gênero terem sido capazes de salvar minha experiência — diz muito sobre o quanto a temporada falhou em construir conexões realmente significativas. Ainda assim, é evidente que algumas cenas funcionam, como a recriação da icônica cena do chuveiro, que ganha um impacto visual forte em versão colorida, ou o momento em que Ed Gein dança ao som de Goodbye Horses, intercalando com a figura de Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes. Porém, outras tentativas de referência, como a cena do martelo associada a O Massacre da Serra Elétrica, soam totalmente dispersas e forçadas dentro da montagem.

    Além disso, todo esse arco resume a escolha do ator Anthony Perkins para interpretar Norman Bates (na série vivido por Joey Pollari) em “Psicose”, baseado apenas em sua sexualidade, o que não faz o menor sentido, especialmente visto que o ator não era assumido no período em que o filme foi rodado. Inclusive, seu namorado Tab Hunter, revelou mais tarde em sua cinebiografia os desafios de esconder o relacionamento deles em Hollywood. Relatos verdadeiros associam sua escolha por ele ser um ator que pudesse gerar empatia e desconforto ao mesmo tempo — alguém com aparência gentil, vulnerável, mas que escondesse algo perturbador por trás do olhar. E Anthony Perkins era exatamente conhecido por diversos papéis do “rapaz sensível e educado” em Hollywood, e isso tornava sua escalação uma escolha inteligente, já que o público não o associava a vilões.

    Curiosamente, o ponto alto da temporada vem apenas no início do sexto episódio, quando Frank Worden (Charlie Hall) — xerife adjunto de Plainfield — encontra o corpo de sua mãe mutilado e pendurado. É um momento genuinamente perturbador, dirigido com peso e tensão. Toda a construção do cenário degradante da casa de Ed Gein, e a descoberta pela primeira vez de suas atrocidades, criam uma imersão direta naquele universo sombrio, e nos faz sentir o peso de tudo o que ele fez de cruel com esses corpos que foram violados. Se a série tivesse começado por aí, como a temporada sobre o Dahmer fez ao abrir com uma cena chocante, talvez o impacto fosse outro.

    Inclusive, esse o sexto episódio se destaca também pelo ótimo desempenho de Charlie Hall, que consegue transmitir com intensidade toda a fúria diante da brutalidade cometida contra sua mãe. Na vida real, ela era uma senhora idosa — o que tornaria a cena ainda mais perturbadora. No entanto, a série mais uma vez recorre a uma sexualização desnecessária, como se tentasse desviar o foco da crueldade praticada contra uma mulher indefesa — praticamente recriando aquele voyeurismo sádico típico dos filmes de terror B, em que mulheres sexualizadas, como em filmes de terror slasher, onde fazem um grande esforço pra um público conservador sentir um prazer culpado de ver a punição dessas mulheres. Se tivessem optado por retratar uma mulher muito mais velha — alguém que pudesse facilmente ser a mãe de qualquer espectador — a reação de repulsa ao comportamento de Ed Gein seria muito mais imediata e visceral. Mas a série, do primeiro ao último episódio, parece evitar a todo custo despertar esse desconforto em relação ao Ed Gein.

    Mas logo a narrativa volta a se perder. O diálogo inventado com uma nazista, no penúltimo episódio, soa quase como uma tentativa bizarra de humanizar Ed Gein, transformando-o em um “homem sensível e incompreendido”. A cena em que ele aparece de lingerie verde reforça ainda mais esse desconforto — não por abordar sua repressão sexual, mas pela forma fetichizada e desproporcional com que é retratada, lembrando mais um fetiche de Ryan Murphy do que uma escolha narrativa coerente, embora existam relatos de que ele usava roupas femininas no manicomio.

    E é uma pena, porque se a série realmente tivesse explorado com profundidade a repressão sexual da época, o resultado poderia ter sido muito mais eficiente — ainda que arriscado, já que poderia levar parte do público a justificar os atos de Ed Gein por pena de sua falta de liberdade em expressar a própria identidade. No entanto, considero ainda pior o caminho escolhido: um melodrama enviesado e sentimentalista, que reduz toda a complexidade psicológica do personagem e o transforma em uma figura quase divina, incompreendida pela sociedade de seu tempo. O resultado é uma obra que mais parece uma novela ruim de baixo orçamento, com um roteiro raso e uma direção que oscila da competência de alguns momentos, para algo de extremo mau gosto.

    O arco do nazismo, por sua vez, é completamente deslocado e pretensioso, tentando dar uma grandiosidade que a série não sustenta, algo que o Ryan Murphy já utilizou em outras séries com mais cuidado, como na própria segunda temporada de “American Horror Story”, onde o nazismo inserido dentro daquela narrativa fez muito mais sentido. E eu entendo a intenção de expandir essa temática partindo do principio de que Ed Gein consumia esses conteúdos, mas transformar apenas isso em algo literal não funciona na série, e mais desfoca do tema central do que expande a complexidade do personagem.

    Já no episódio final, a conversa entre Ed Gein e os agentes Douglas e Ressler é uma invenção sem propósito, já que, na realidade, o caso dele apenas serviu como referência para estudos futuros do FBI — esse encontro jamais aconteceu. Mais uma vez, entendo que exista liberdade criativa para adaptar fatos reais em função da narrativa; isso, inclusive, foi feito com competência na primeira temporada, quando criaram uma vizinha de Dahmer que na verdade era a junção de duas mulheres, mas que acabou sendo essencial para dar profundidade emocional à história.

    No entanto, há uma diferença enorme entre usar esse recurso com sensibilidade e coerência — de modo a convencer o espectador — e recorrer a ele por puro desespero criativo, tentando artificialmente engrandecer a trama. O uso dos detetives e a maneira como a série mostra Ed Gein ajudando no caso de Ted Bundy soam especialmente forçados, quase transformando-o em um vilão em busca de redenção, um “herói” no desfecho. Nada disso, porém, aconteceu: na vida real, Ed Gein apenas foi estudado anos depois, como objeto de análise psicológica, e nunca participou ativamente de qualquer investigação.

    O desfecho, por fim, é pavoroso. As várias tentativas de encerrar a história resultam em uma sequência final repetitiva e emocionalmente vazia — um amontoado de desfechos alternativos, cada um mais equivocado que o anterior. A cena dos jovens no Halloween, vendo figuras icônicas do terror, é infantilizada e completamente deslocada, parecendo saída de uma série derivada ruim deAmerican Horror Story. Em suma, Monstros: A História de Ed Gein é uma oportunidade desperdiçada. O que poderia ter sido um retrato perturbador e profundo da origem de um dos assassinos mais infames dos Estados Unidos se transforma em uma colagem de ideias mal resolvidas — um produto apressado, sem foco e sem propósito real. O resultado é uma temporada que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo e não consegue ser consistente em nenhuma delas.

    Ryan Murphy, que já demonstrou domínio ao equilibrar horror e crítica social da temporada de Dahmer, aqui parece refém dos próprios vícios criativos: o fetichismo visual, o melodrama sentimentalista e a necessidade de chocar a qualquer custo. A temporada não só falha em compreender a monstruosidade de Ed Gein, como glorifica diversos assassinos, e um homem que violava túmulos, abusava de cadáveres e transformava pele humana em objetos. O que deveria ser uma análise sobre a psique doentia de um assassino acaba se tornando uma narrativa pretensiosa e moralmente duvidosa, que tenta manipular o espectador a enxergar humanidade onde só há horror. Uma temporada tenta manipular o público ao ponto de convencer o espectador de que ele era um ser divino e incompreendido, não é só patético, como de extremo mau gosto. No fim, Monstros: A História de Ed Gein não provoca medo, nem reflexão — apenas constrangimento.

    Confira o trailer:

    🍿 Série: Monstro: A História de Ed Gein
    📺 Onde assistir: Netflix
    Nota: ✱ ✱ – (4.0/10) Ruim
    Criada por: Ryan Murphy & Ian Brennan
    2022/2025 ‧ Drama/Terror ‧ 3 temporadas

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