“Balada de um Jogador” expõe o vazio por trás dos jogos de cassino

O mais novo filme de Edward Berger, responsável por sucessos como “Nada de Novo no Front” e “Conclave”, marca seu retorno com mais um projeto ambicioso. Em “Balada de um Jogador”, o diretor volta a provar seu domínio visual e sensorial, conduzindo uma história que, assim como seus trabalhos anteriores, equilibra rigor técnico e densidade emocional. O longa abre exibindo Macau, na China, com uma fotografia exuberante que destaca as luzes de néon e o ritmo pulsante da cidade — um cenário que desde o início reflete o brilho artificial e o vazio que consomem o protagonista.

Nos luxuosos cassinos de Macau, conhecemos Lord Doyle (vivido brilhantemente por Colin Farrell), um homem em fuga — das dívidas, do passado e de si mesmo. Ele sobrevive de apostas e mentiras, alimentado por uma fé cega na sorte e pelo vício que o consome. Em meio ao caos de sua rotina, Doyle se vê diante de uma sequência de desespero: devendo ao hotel onde vive e testemunhando o suicídio de outro jogador, também tragado pela obsessão. É nesse contexto que surge Dao-Ming (Fala Chen), uma hostess do cassino que o fascina tanto quanto o desestabiliza.

O título de “Lord”, que Doyle usa como escudo social, é uma fachada — um disfarce para a própria ruína. Edward Berger constrói nele um personagem que se sustenta em aparências, vivendo de uma imagem que mascara sua falência moral e emocional. Essa dualidade é reforçada pela belíssima direção de fotografia de James Friend, que abusa dos tons esverdeados e azulados, traduzindo visualmente o contraste entre o luxo exterior e a podridão interna do protagonista.

A trilha sonora de Volker Bartelmann (Hauschka) também merece destaque. Ela surge como uma presença constante, quase um personagem invisível que acompanha Doyle em cada deslize, intensificando o clima de paranoia e o sentimento de aprisionamento dentro daquele labirinto de jogos e ilusões.

Entre Doyle (Colin Farrel) e Dao-Ming (Fala Chen), há momentos de ternura que revelam a solidão de ambos: ele, dominado pelo vício; ela, consumida pela culpa de financiar destruições alheias. É uma relação que nasce da carência e se sustenta na mentira, e o cineasta filma esse encontro com melancolia e distância, como se ambos já soubessem que não há salvação possível ali.

A entrada de Tilda Swinton, como a investigadora Cynthia Blithe, injeta novo fôlego na narrativa. Sua presença acrescenta mais paranoia ao enredo e transforma a busca por redenção em uma corrida desesperada por sobrevivência. Em uma das melhores cenas, Doyle a persegue ao descobrir que está sendo fotografado. É um momento em que o caos visual e dos cenários se mistura à trilha em ritmo frenético, espelhando o colapso mental do personagem.

Com o desenrolar da trama, a narrativa passa a questionar o que é real e o que é apenas fruto da mente perturbada de Doyle. A partir daí, o filme abandona os cenários brilhantes dos cassinos para mergulhar na escuridão de um homem à beira do abismo. A ruína física e moral do protagonista é exposta sem filtros, e Edward Berger conduz essa descida com um olhar quase existencialista: quanto mais Doyle tenta se libertar, mais o vício o prende.

A sequência final pode surpreender quem espera uma conclusão otimista, mas é justamente na recusa de caminhos previsíveis que o filme revela sua força. Edward Berger conduz o desfecho com sensibilidade e precisão, mantendo a tensão entre culpa e redenção sem precisar explicitar tudo. Doyle permanece um homem em conflito, preso entre a necessidade de sorte e o desejo de controle — e é nesse impasse que o filme encontra seu sentido mais profundo.

No fim das contas, “Balada de um Jogador” não é um filme sobre apostas, mas sobre o peso de enfrentar os próprios fantasmas. Macau, com seus neons e ruídos incessantes, funciona como um reflexo da mente do protagonista — um labirinto de ilusões, desejos e autoengano. Edward Berger transforma essa jornada em uma parábola sobre culpa, identidade e renúncia, mostrando que nem sempre a verdadeira vitória está em vencer o jogo, mas em compreender por que jogamos.

Confira trailer:

🍿 Filme: Balada de um Jogador
📺 Onde assistir: Netflix
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.0/10) Ótimo
Direção: Edward Berger
2025 ‧ Drama/Thriller ‧ 2h 18m

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