
O diretor Scott Derrickson retorna ao universo sombrio de “O Telefone Preto” tentando expandir os ecos traumáticos do primeiro filme. Mas o resultado é uma sequência que vacila entre o terror psicológico e a repetição estética.
Logo na introdução, o diretor cria uma atmosfera intrigante: uma garotinha em um cenário desértico e gelado atende ao icônico telefone preto. É uma cena poderosa em conceito e imagem, mas que promete mais do que o filme entrega.
O uso dos pesadelos de Gwen (Madeleine McGraw) como ponte com o espírito do The Grabber é uma boa ideia, mas evoca inevitavelmente “A Hora do Pesadelo”, mas sem alcançar a criatividade ou o senso de reinvenção que Wes Craven tinha ao explorar o inconsciente. Scott Derrickson parece ciente dessa comparação, mas não consegue escapar da armadilha da repetição: seus sonhos são estilizados, escuros e visualmente densos, porém carecem de clareza narrativa e impacto emocional.
Pesadelos assombram Gwen, agora com 15 anos, enquanto ela recebe chamadas do telefone preto e tem visões perturbadoras de três rapazes sendo perseguidos em um acampamento de inverno. Com a ajuda do irmão, ela precisa confrontar um assassino que se tornou ainda mais poderoso após a morte.
O jovem ator Mason Thames retorna como Finney, agora mais velho e marcado pelo trauma. Sua primeira cena — em que espanca um colega de escola — já evidencia um personagem endurecido, mas o roteiro não o aprofunda além disso. As interações com Gwen mantêm um certo afeto e cumplicidade, mas a dinâmica entre os dois se limita a diálogos expositivos. A presença do Grabber nas visões de Finney poderia funcionar como uma metáfora potente do medo que persiste, mas a execução é irregular.
Os flashbacks no lago durante o inverno talvez sejam o ponto mais visualmente interessante do filme. Neles, o diretor Scott Derrickson recupera brevemente o desconforto físico do terror — aquele que o espectador sente na pele, junto com o frio e a dor dos fantasmas. É um dos raros momentos em que o diretor reencontra o tom de filmes como “A Entidade”, outro destaque de sua filmografia. Ainda assim, as repetições dos pesadelos de Gwen acabam desgastando o impacto: apesar da atuação competente de McGraw, as cenas se tornam previsíveis e pouco inventivas, abusando da estilização granulada para simular tensão.
Há tentativas pontuais de estilo, como uma sequência na estrada ao som de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd. Mas essas inserções destoam do tom geral, soando mais como exercícios estéticos do que elementos orgânicos da narrativa. O mesmo vale para uma cena na igreja, em que os personagens discutem o passado de forma tão didática que quebra o ritmo e reduz a imersão — como se o roteiro quisesse explicar demais o que o espectador já entendeu.
O confronto final entre Gwen e o The Grabber enfim injeta alguma tensão, com uma direção mais física e menos dependente dos sonhos. No entanto, o desfecho é apressado, resolvendo-se antes de alcançar o impacto emocional que prometia. A tentativa de encerrar com uma conversa emocional entre Gwen, Finney e o pai — conectando a história à morte da mãe — soa forçada, um drama mal costurado dentro de um roteiro já fragmentado e sem foco.
No fim, “O Telefone Preto 2” é uma continuação que tenta equilibrar o trauma e o sobrenatural, mas perde força ao repetir fórmulas visuais e temáticas do original. Há bons momentos, especialmente na atmosfera sombria que Scott Derrickson sabe construir e no simbolismo persistente do telefone —, mas o verdadeiro medo, aquele que nasce do inesperado, nunca chega ao auge que o filme promete.
Confira o trailer:
🍿 Filme: O Telefone Preto 2 (Black Phone 2)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ — (5.5/10) Mediano
Direção: Scott Derrickson
2025 ‧ Terror/Suspense ‧ 1h 50m