
Em “Depois da Caçada”, o diretor Luca Guadagnino abandona qualquer exuberância estilística como já visto em filmes como “Rivais”, e se volta a um thriller psicológico seco, incômodo e sufocante. É um filme sobre crises éticas, geracionais, institucionais e íntimas, que se entrelaçam até borrar os limites entre causa e consequência. Não há zonas de conforto aqui. Há zonas cinzentas.
E no centro desse espaço nebuloso, a atriz Julia Roberts oferece uma das atuações mais profundas, controladas e devastadoras de toda a sua carreira. A atriz dá vida a Alma Imhoff, professora de filosofia respeitada, mas cercada por estruturas rígidas de prestígio e poder acadêmico. Quando uma denúncia envolvendo sua aluna favorita e um colega próximo irrompe no campus, tudo ao redor dela passa a se deslocar. O cineasta Luca Guadagnino transforma a universidade em um organismo vivo — tensionado por gerações que não falam a mesma língua, por hierarquias que tentam se reinventar e por ego ferido em todas as direções.
O filme apresenta esses conflitos sem didatismo: as conversas provocativas e turbulentas, os ressentimentos, e a constante tentativa de Alma em manter a ordem mostram que a erosão moral já começou muito antes dos eventos principais.
A tensão geracional é estabelecida logo nas primeiras interações entre Maggie (Ayo Edebiri) e Hank (Andrew Garfield). Ele ironiza o medo que a geração dela tem de ofender, ela devolve, incisiva, contra-ataca ressaltando como a geração dele deslegitima a dela. O filme deixa claro que o problema não é apenas estrutural, mas também emocional.
Luca Guadagnino trabalha com silêncios, cortes secos e interrupções estratégicas. A acusação que movimenta a trama se espalha, mas o filme prefere observar as rachaduras que isso provoca em vez de dramatizar o fato em si. O que importa aqui não é o que aconteceu, mas o que cada personagem acredita ter acontecido — e como esse julgamento, sempre parcial, reconfigura suas relações.
A sequência em que Hank tenta convencer Alma de sua inocência é um exemplo brilhante de como o diretor estrutura a ambiguidade: planos fechados, olhares furtivos e uma trilha sonora de piano que cresce quase como um sintoma físico de desconforto. O ator Andrew Garfield, com sua combinação de fragilidade performada e arrogância latente, transforma essa cena em um espetáculo de manipulação emocional.
Já a atriz Ayo Edebiri, como Maggie, entrega uma performance que movimenta a trama — marcada por impulsos contraditórios, raiva mal contida e uma vulnerabilidade que nunca se revela de forma direta. Quando confrontada, sua explosão não surge apenas como dor, mas como confusão, vergonha e impotência. O diretor captura essas nuances com uma câmera que parece sempre prestes a invadir o espaço íntimo das personagens.
Paralelamente à turbulência institucional, Alma (Julia Roberts) mergulha em crises físicas e emocionais — surtos de ansiedade, desmaios, dores e colapsos. É como se seu corpo começasse a rejeitar a vida que ela construiu em cima de silêncios, segredos e omissões.
Seu relacionamento com Maggie (Ayo Edebiri) se torna cada vez mais estranho, parasitário e confuso. Maggie revela ter invadido a intimidade de Alma ao roubar um papel com informações pessoais. Alma explode em um surto que Julia Roberts executa com frieza, medo e raiva acumulada.
O embate de Alma (Julia Roberts) com os seus alunos que “problematizam tudo” reflete o fosso entre o ensino tradicional e as demandas de uma geração mais politizada, hiperconsciente e, muitas vezes, míope e impaciente. Luca Guadagnino filma essa cena como um microcosmo das guerras culturais contemporâneas. Mas o filme usa isso menos como enredo e mais como sintoma visual. A fotografia escura, quase dessaturada, ecoa seu colapso interior.
A atriz Julia Roberts está fantástica, entregando uma personagem feroz, fraturada, contida e explosiva nos momentos certos. Andrew Garfield e Ayo Edebiri elevam ainda mais o filme, cada um vibrando em frequências diferentes de tensão e desalinho moral.
Enquanto o ator Michael Stuhlbarg, como Frederic, aparece para aprofundar ainda mais esse desgaste emocional. Sua interpretação inquietante, e ao mesmo tempo serena na reta final, é perfeita para um personagem que funciona tanto como espelho dos outros personagens igualmente dúbios e complexos.
O diretor Luca Guadagnino não suaviza os conflitos: confrontos verbais estouram, humilhações públicas acontecem, amizades desmoronam. O tapa que Maggie (Ayo Edebiri) dá em Alma diante dos alunos funciona como ápice simbólico de tudo que antes só vibrava de forma silenciosa. É o momento em que o conflito privado se torna público — e irreversível.
A total perda da máscara moral ocorre quando Hank (Andrew Garfield), após se mostrar para Alma convincente sobre nunca ter abusado de suas alunas, não dura muito, porque logo ele revela sua verdadeira face num ato de tentativa de violência sexual. É o golpe final contra qualquer neutralidade: a ambiguidade existe, mas não é igualmente distribuída. Andrew Garfield brilha ao construir essa curva de personagem — da aparente convicção de sua inocência ao horror absoluto de sua hipocrisia moral.
O diálogo entre Alma (Julia Roberts) e Frederic (Michael Stuhlbarg) sobre o passado dela é o coração emocional do filme. Um erro cometido na juventude, uma vida destruída, uma culpa nunca enfrentada. A cena não é melodramática; é devastadora justamente porque Guadagnino a filma com sobriedade. Michael Stuhlbarg e Julia Roberts brilham juntos em cena.
É nesse momento que o filme amarra seus temas: responsabilidade, trauma, narrativa, verdade e a impossibilidade de ser totalmente absolvida — especialmente por si mesma.
O reencontro entre Alma (Julia Roberts) e Maggie (Ayo Edebiri), filmado de maneira quase artificial, gera estranhamento imediato. A decisão de encerrar o filme com um “corta” dito em cena retira o espectador da diegese e expõe a própria construção da narrativa. Não é um final conciliador; é uma provocação. Se tudo é versão, o que resta como verdade? “Depois da Caçada” é um estudo sobre colapso moral em câmera fechada. É cruel, complexo e profundamente humano. Luca Guadagnino dirige com precisão cirúrgica, sem concessões, apostando em atuações fenomenais para sustentar a ambiguidade emocional e ética que o filme exige. Não é um filme que busca respostas. É um filme que expõe feridas — e nos deixa lidando com o desconforto muito depois do “corta”.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Depois da Caçada (After The Hunt)
📺 Onde assistir: Prime Video
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.5/10) Ótimo
Direção: Luca Guadagnino
2025 ‧ Thriller/Drama ‧ 2h 19m