“Morra, Amor” é um drama arrebatador sobre o peso da maternidade

“Morra, Amor” é dirigido pela escocesa Lynne Ramsay, cineasta que admiro muito pelos excelentes “Precisamos Falar Sobre Kevin” e “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”. Assim como neles, Ramsay novamente mergulha em temas densos e emocionalmente devastadores. Aqui, ela adapta o romance de Ariana Harwicz e constrói um drama existencial perturbador sobre depressão pós-parto, transitando entre o drama, o surrealismo e até lampejos de terror psicológico, refletidos nas alucinações e no colapso mental da protagonista.

Na trama, Grace (Jennifer Lawrence), uma nova mãe isolada em uma casa rural nos EUA, enfrenta a depressão pós-parto, a deterioração da própria saúde mental e a pressão de corresponder a uma idealização da maternidade que ela não consegue alcançar. Esse turbilhão afeta diretamente seu casamento com Jackson (Robert Pattinson), que tenta manter a estrutura familiar enquanto observa a esposa se desfazer diante dos seus olhos.

Há uma tensão sexual que surge logo de início: as relações entre eles são intensas, agressivas e impulsivas, revelando que o sexo se torna para Grace uma fuga emocional, um lugar onde ela tenta recuperar controle. Na verdade, essa necessidade apenas expõe seu desequilíbrio.

Jennifer Lawrence entrega uma performance visceral, revelando um caos interno quase indizível, enquanto Robert Pattinson interpreta Jackson como um homem esgotado, dividido entre amor, desespero e medo.

O longa utiliza com inteligência a proporção de tela 1.33:1, quase quadrada, criando uma sensação de confinamento constante, um espelho perfeito para o aprisionamento físico e psicológico de Grace na rotina, no corpo, na casa e no papel de mãe que lhe sufoca. Pequenos eventos cotidianos, como o cachorro que passa a perturbá-la até o ponto da irracionalidade, transformam-se em gatilhos para cenas de absoluto descontrole, aproximando a narrativa de um horror familiar e silencioso.

O design sonoro funciona como um espelho direto da mente de Grace: o que ouvimos não é apenas o ambiente, mas a percepção distorcida dela sobre esse ambiente. Sons domésticos banais, como o choro do bebê, o latido do cachorro ou rangidos da casa, tornam-se cada vez mais agressivos e invasivos, como se o mundo ao redor conspirasse para destruir sua estabilidade.

A trilha musical quando surge, rompe com qualquer sensação de conforto: chega como uma descarga, muitas vezes desarmônica e dissonante, reforçando a tensão e ampliando a subjetividade da experiência.

Sequências desconfortáveis, como o acidente com o cavalo ou a cena na piscina acompanhada por um surto público desesperador, demonstram como a direção usa o caos, o som elevado e o imprevisível para traduzir uma mente em colapso. Grace também passa a ter visões de um homem morto, cenas imersas em escuridão que reforçam o terror que habita sua subjetividade. Em um dos momentos finais, um flashback do casamento revela que os sinais de instabilidade sempre existiram, embora estivessem mascarados por uma expectativa romântica de futuro.

A cineasta Lynne Ramsay, no entanto, rejeita a ideia de que a história possa ser definida apenas como um retrato da depressão pós-parto. Para ela, Grace não é uma figura simbolicamente limitada ao trauma hormonal da maternidade, mas uma mulher despedaçada pela colisão entre o desejo e o papel que lhe é imposto. O filme, então, expande seu olhar para além do diagnóstico: é sobre o amor que se deteriora, sobre o corpo que já não corresponde ao prazer antes possível, sobre a identidade criativa e emocional que se fragmenta ao se tornar “mãe” antes de continuar sendo “ela”. Ramsay transforma esse arco numa narrativa sobre eros e destruição, sobre como o afeto pode se tornar um abismo e como o lar — idealizado como porto seguro — pode se transmutar na prisão onde reside tudo aquilo que ela não consegue abandonar. 

“Morra, Amor” é um cinema de desconforto: tenso, claustrofóbico e imensamente humano. Se “Precisamos Falar Sobre Kevin” denunciava os horrores que podem emergir depois da infância, “Morra, Amor” volta-se para o horror silencioso que nasce antes. É uma obra brutal e incômoda, que evita romantizar a maternidade e encara de frente seu lado mais traumático. Lynne Ramsay entrega uma experiência sufocante e profunda, amplificada pelo formato de tela estreito e pela entrega arrebatadora de Jennifer Lawrence. É um filme que abraça o desconforto como ferramenta narrativa e que nos lembra que nem toda transformação materna é acompanhada de luz. Às vezes, ela nasce do abismo.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Morra, Amor (Die My Love)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.5/10) Ótimo
Direção: Linne Ramsay
2024 ‧ Drama ‧ 1h 47m

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