“O Monstro em Mim”, criada por Gabe Rotter, é uma minissérie de suspense psicológico da Netflix estrelada pelos excelentesMatthew Rhys (“The Americans”) e Claire Danes (“Homeland”). Diferente da maioria dos lançamentos recentes da plataforma, a série se destaca por estar acima da média, especialmente pela escolha precisa de seus protagonistas.
Há uma química poderosa entre os dois, que conseguem traduzir em cena diferenças inquietantes e uma tensão constante, tornando o jogo psicológico e a dinâmica desses personagens extremamente envolventes.
A trama acompanha Aggie Wiggs (Claire Danes), uma escritora em luto após a morte do filho. Em meio a esse processo, ela passa a lidar com seu enigmático e perigoso vizinho, Nile Jarvis (Matthew Rhys), que desperta ao mesmo tempo sua curiosidade e sua inspiração para escrever um livro sobre ele. À medida que a relação entre os dois se aprofunda, o envolvimento se torna cada vez mais arriscado, sobretudo quando Aggie começa a descobrir aspectos perturbadores de sua personalidade.
Os episódios iniciais exploram de forma muito eficaz a dinâmica entre esses dois personagens, sempre sustentados por um senso constante de risco iminente. É evidente que Aggie está certa em suas desconfianças em relação a Nile Jarvis e, ao contrário do que poderia soar previsível em uma série menos cuidadosa, essa certeza se torna o principal motor da narrativa. O espectador sabe que a protagonista está se envolvendo com um homem perigoso — e é justamente essa consciência que intensifica a tensão dramática.
Mais interessante ainda é a forma como o roteiro e a direção trabalham simultaneamente a distância e a aproximação entre os personagens, construindo diálogos carregados de subtexto e magnetismo. Cada interação entre Aggie e Nile parece uma dança calculada entre atração, medo e controle, o que transforma essas cenas no verdadeiro coração da série.
O problema é que todos esses acertos acabam se diluindo conforme a série avança. Já na metade da temporada, torna-se evidente aquela necessidade recorrente dos serviços de streaming de acelerar a narrativa, atropelando o desenvolvimento progressivo das situações e até mesmo a construção psicológica dos personagens para gerar tensão por meio da ação. E vale deixar claro: não há nenhum problema nisso quando essa escolha é bem executada.
O ponto é que “O Monstro em Mim” começa de forma muito mais envolvente justamente ‘por saber trabalhar o espaço, os personagens e as nuances de cada um. O quebra-cabeça da mente da protagonista funciona como um espelho do espectador, que também se vê confrontado pela verdade à medida que a narrativa avança. No entanto, ao optar por incluir mais personagens e criar situações que empurram a trama adiante apenas para manter a atenção do usuário de streaming, a série abre mão do que tinha de mais interessante. Com isso, perde peso dramático e acaba se transformando em mais um produto genérico dentro do catálogo da plataforma.
Só que, em meio a essas escolhas óbvias que acabam reduzindo o potencial dramático da série, ainda há Claire Danes e Matthew Rhys. E é impressionante como, sempre que os dois estão em cena, a narrativa parece ganhar outra forma. Isso se deve, em parte, ao roteiro, que sabe construir diálogos envolventes, mas sobretudo às atuações e à química evidente entre os dois.
Claire Danes carrega aqui traços que remetem à sua icônica Carrie, de “Homeland”: o olhar paranoico, a constante desconfiança, a instabilidade emocional. O que poderia facilmente soar como repetição ou erro, acaba funcionando a favor da série. A atriz domina esse tipo de personagem e encontra, neste papel, o espaço ideal para reutilizar certos trejeitos e expressões que já lhe são familiares, mas agora ressignificados dentro de uma nova dinâmica narrativa.
Já o ator Matthew Rhys talvez seja quem mais impressiona. O ator dá vida a um homem completamente fora de controle, volátil e imprevisível, muito distante da postura contida e racional que costuma marcar seus personagens mais conhecidos. É justamente esse deslocamento que torna sua atuação tão impactante e surpreendente dentro da série.
Em “O Monstro em Mim”, Matthew Rhys constrói um personagem inquietante, que oscila entre o carisma e a ameaça constante, fazendo com que o espectador nunca se sinta totalmente seguro em sua presença. Há algo de profundamente perturbador na maneira como ele ocupa a cena, seja pelo olhar, pelos silêncios ou pelas explosões emocionais pontuais. Esse papel acaba se destacando como um dos mais interessantes de sua carreira recente, não apenas por romper com o que estamos acostumados a ver do ator, mas por evidenciar, de forma muito clara, sua versatilidade e capacidade de transitar por registros psicológicos extremo.
Alguns episódios da minissérie são dirigidos por Antonio Campos, responsável pelo filme “O Diabo de Cada Dia”, da Netflix — que considero muito bom —, além de ser o criador da minissérie “A Escada”, da HBO. Esses créditos ajudam a entender por que há um cuidado tão evidente na direção. O diretor já havia demonstrado domínio do suspense psicológico e de narrativas sombrias em trabalhos anteriores, e essa experiência se reflete claramente aqui.
A cinematografia da série também merece destaque. A forma como os ambientes escuros são explorados, assim como o uso recorrente de sombras para marcar os personagens, contribui diretamente para a construção da atmosfera. Essa escolha visual não apenas reforça o mistério e a sensação de ameaça constante, como também aprofunda a imersão do espectador nesse universo obscuro e psicológico que a série propõe.
Confira o trailer:
🍿 Série: O Monstro em Mim (The Beast in Me)
📺 Onde assistir: Netflix
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (7.5/10) Muito boa
Criada por: Gabe Rotter
2025 ‧ Suspense psicológico ‧ 1 temporada
