
O diretor Park Chan-wook (de “Oldboy” e “A Criada”) é, sem dúvida, um dos maiores cineastas contemporâneo. Além de um extraordinário contador de histórias, ele domina como poucos a arte de transformá-las em imagens arrebatadoras — seja em seus enquadramentos sofisticados, engenhosos e absolutamente criativos, ou no modo como manipula cores para guiar nossas emoções.
Cada plano é meticulosamente arquitetado. Park Chan Wook não é apenas um diretor; é um verdadeiro artesão do cinema. Sua visão ultrapassa a narrativa: ele faz arte. E em “A Única Saída”, adaptação do livro “O Corte”, de Donald E. Westlake, ele comprova mais uma vez o quanto permanece como um dos realizadores mais visionários, ousados e geniais em atividade.
Após perder o emprego depois de 25 anos na mesma empresa, Man Soo (Lee Byung-hun), um homem de meia-idade e chefe de família, entra numa espiral de desespero ao enfrentar o desemprego e a incapacidade de sustentar aqueles que ama. Em um gesto extremo, ele tem a idéia de eliminar qualquer concorrente que possa ocupar a vaga que deseja, o problema é que ele começa fazer isso sem nenhum plano.
A demissão deixa o protagonista (interpretado brilhantemente por Lee Byung-hun) completamente desnorteado. Como provedor do lar, Man Soo sente o peso esmagador da responsabilidade, o que o faz mergulhar rapidamente em pânico. Ele segue em busca de novas oportunidades e participa de uma entrevista de emprego que será determinante para sua trajetória. A tensão cresce a ponto de desencadear dores de dente intensa, como resposta a uma manifestação física da ansiedade e da culpa que se acumulam dentro dele.
Sua esposa Yoo Mi-ri (Son Ye-jin) também começa a tomar decisões drásticas para conter gastos, como cortar atividades de lazer e entregar os seus cachorros temporariamente para seus pais, enquanto o marido não volta a trabalhar, o que evidentemente corrobora para que Man Soo perceba o quanto sua demissão está sobrecarregando toda a sua família.
A primeira tentativa de eliminar um dos candidatos é dirigida com extrema precisão: a câmera foca no suor, no pavor e na hesitação do protagonista, enquanto Park Chan Wook cria um caos visual que traduz a deterioração emocional do personagem.
A cena em que ele tenta assassinar um homem dentro da própria casa do alvo se transforma em uma das sequências tragicômicas mais divertidas e desconfortáveis dos últimos anos, onde o humor surge justamente do improvável e do absurdo da situação.
Ao matar outra vítima, o diretor enquadra o asfalto tingido de vermelho depois de uma cena de assassinato ao lado da praia esverdeada, criando um contraste visual poderoso. É o domínio do cineasta sobre a paleta cromática usado para reforçar simbolicamente o horror daquela ação do protagonista.
Dois agentes da polícia visitam a casa de Man Soo após o desaparecimento de candidatos da entrevista. O nervosismo do protagonista, suas respostas desconexas e até pequenos rastros das evidências tornam o momento tão tenso quanto cômico, resultando em um humor amargo que o diretor Park Chan-wook sabe equilibrar como ninguém.
O que torna o longa distinto dos trabalhos anteriores do diretor é justamente a maneira como ele explora um protagonista profundamente falho. Aqui, não existe o homem vingativo que arquitetou cada detalhe de seu plano. Vemos, em vez disso, um ser humano quebrado, agarrado desesperadamente à ideia de salvação, ainda que por um caminho completamente absurdo. Essa abordagem proporciona momentos de puro caos, mas também surpreendentemente divertidos de acompanhar, resultando em uma experiência que, na maior parte do tempo, se revela mais cômica do que tensa.
A trilha sonora é outro dos grandes acertos do longa. Vai de músicas clássicas, como Mozart, a hits mais pops, como “Hold On, I’m Comin” de Sam & Dave, criando diferentes dinâmicas dentro da narrativa. Cada escolha musical impulsiona a trama, dialogando diretamente com a direção, intensificando emoções e acrescentando camadas ao caos vivido pelo protagonista.
O filme não se sustenta apenas pela premissa absurda; ele também mergulha na discussão sobre o avanço das máquinas e o aumento do desemprego entre os seres humanos. Isso ganha força em uma sequência final impactante, que contrapõe imagens de máquinas operando com a completa ausência de trabalhadores nesses espaços — uma crítica direta e visualmente poderosa ao futuro que estamos construindo.
“A Única Saída” é, acima de tudo, um filme sobre o desespero cotidiano que nasce quando a sociedade torna pessoas descartáveis — e do quanto a linha entre estabilidade e ruína pode ser assustadoramente curta. O cineasta Park Chan-wook transforma essa tragédia humana em um espetáculo visual afiado, que provoca riso, desconforto e reflexão na mesma intensidade. É uma obra que conversa com o presente, cutuca feridas sociais e faz isso com uma simplicidade narrativa que nunca compromete a genialidade formal do diretor. No fim, rimos porque dói; nos divertimos porque reconhecemos ali o absurdo real do mundo em que vivemos. E é exatamente por essa mistura tão rara que “No Other Choice” se torna um dos filmes mais surpreendentes e provocadores da carreira de Park Chan-wook.
Confira o trailer:
🍿 Filme: No Other Choice
📺 Onde assistir: Em breve na Mubi
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.5/10) Ótimo
Direção: Park-Chan Wook
2025 ‧ Comédia/Thriller ‧ 2h 19m