“Socorro” prova que o verdadeiro terror não vem de sustos

O terror talvez seja o gênero que mais enfrentou rejeição dentro da indústria cinematográfica. Mesmo quando diretores e atores entregaram obras memoráveis, muitas delas foram tratadas com desdém pela crítica e pelas premiações — e, com o passar do tempo, acabaram se tornando muito mais marcantes do que vários dramas laureados com o Oscar que hoje caíram no esquecimento. Basta lembrar de clássicos como “O Iluminado” e “O Bebê de Rosemary”, filmes que redefiniram a linguagem do medo e seguem influenciando gerações. É verdade que “Psicose” chegou a receber indicações importantes, mas não foi reconhecido como Melhor Filme, um tipo de miopia histórica que só começou a ser corrigida recentemente com a presença de títulos como “Corra!” e “A Substância” nas grandes premiações.

Essa resistência, no entanto, não parte apenas da indústria. Curiosamente, até parte do público que se diz fã de terror costuma aprisionar o gênero a um único recorte. Há quem trate o terror psicológico como a única vertente “respeitável”, desprezando o terror cósmico, o found footage, o sobrenatural, o slasher — ou até o terrir (com “i” mesmo), subgênero no qual se encaixa o novo filme de Sam Raimi, “Socorro”. que é mestre em unir medo e comédia, como já provou em “Uma Noite Alucinante” e “Arrasta-me Para o Inferno”. Quem não entende que o terror comporta múltiplas abordagens tende a se frustrar ao assistir a um filme sem reconhecer sua proposta. E “Socorro” cumpre exatamente o que promete: provocar gargalhadas pelo absurdo, pelo constrangimento e pela absoluta falta de compromisso com a verossimilhança — algo muito próximo do espírito anárquico de certos capítulos da franquia “Sexta-feira 13”.

Dito isso, arrisco afirmar que “Socorro” já nasce com potencial de clássico. É claro que o modo como os clássicos se formam mudou: antes, um filme permanecia meses em cartaz, alimentando o boca a boca; hoje, o reconhecimento costuma vir com o tempo e com as redescobertas no streaming, onde obras ganham novas camadas de leitura. Posso estar errado (só o futuro dirá), mas há argumentos sólidos para acreditar que este filme vai conquistar em cheio quem ama terrir e, sobretudo, os fãs mais fiéis de Sam Raimi. É um prazer vê-lo retornar ao território que domina como poucos, depois da experiência irregular em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, projeto claramente engessado pelas amarras criativas da Marvel. Não podemos esquecer que estamos falando do diretor responsável pela melhor trilogia do Homem-Aranha, com Tobey Maguire e Kirsten Dunst. Sam Raimi é acima de tudo, um cineasta que, quando tem liberdade, transforma o grotesco em poesia visual e o ridículo em espetáculo.

Linda (Rachel McAdams) vive uma fase difícil, e isso fica evidente desde a primeira cena. Ao conhecer o novo chefe, Bradley (Dylan O’Brien), o encontro já começa desastroso: ela o cumprimenta com a mão suja de sanduíche de atum, num constrangimento que define o tom cômico e quase físico da relação. O diretor Sam Raimi reforça esse humor com enquadramentos atentos a pequenos detalhes, como se cada objeto em cena conspirasse contra a protagonista. Apesar de estar há sete anos na empresa, Linda é preterida por um colega com apenas sete meses de casa, e seu visual desleixado remete imediatamente à personagem de “O Diabo Veste Prada”, mas numa versão menos glamourosa e mais patética. Bradley questiona sua capacidade de liderança e, para piorar, os dois precisam viajar juntos a trabalho. No avião, assistem a um vídeo antigo dela tentando entrar no reality “Survivor”, o que a deixa humilhada diante das risadas machistas e repugantes dos executivos da empresa. A viagem termina com a queda da aeronave, numa sequência que equilibra tensão real e humor absurdo.

E isso é só o começo. O filme logo abandona qualquer aparência de thriller convencional e mergulha numa espiral de situações cada vez mais insanas, como se Sam Raimi estivesse testando até onde pode esticar a corda do bom senso. Há até um flerte com o genênero romance, e algumas vezes nos faz lembrarmos até do clássico “A Lagoa Azul”, mas aqui tudo é às avessas: a relação entre Linda e Bradley está longe de ser afetuosa, e o que poderia virar conto de amor vira um duelo de egos feridos. Sempre que parece surgir alguma conexão, o diretor vira o jogo de cabeça para baixo — no melhor sentido possível, lembrando que no terrir o sentimento e a piada andam de mãos dadas.

Após o desastre, a narrativa encontra seu ponto mais interessante: a inversão de forças entre os dois. Bradley se mostra inútil fora do ambiente corporativo, enquanto Linda assume o controle graças ao repertório improvável que trouxe do reality “Survivor”, transformando cultura pop em manual de sobrevivência. Quando ele dispara o arrogante “você trabalha para mim”, Linda simplesmente o abandona para provar o contrário — e o filme cresce justamente nessa ruptura com a lógica do escritório, revelando quem cada um realmente é sem o crachá pendurado no peito.

A sequência do javali resume o espírito da obra: grotesca, assustadora e incrivelmente engraçada, daquele tipo que arranca um riso culpado. Não costumo gostar de cenas envolvendo caça, mas o nível de absurdo me afastou completamente da verossimilhança e provocou aquela reação inevitável: “que diabos estou assistindo?”.

Minha única ressalva fica para os efeitos especiais, que às vezes soam artificiais demais. Considerando o histórico do diretor com maquiagens e soluções práticas em “Uma Noite Alucinante” e “Arrasta-me Para o Inferno”, acredito que uma equipe mais dedicada a efeitos físicos teria elevado ainda mais a experiência, trazendo aquele aspecto tátil e nojento que sempre foi marca do cinema de Sam Raimi.

Mais tarde, quando um barco surge no horizonte e Linda hesita em pedir socorro, o roteiro revela sua camada mais curiosa: longe das hierarquias artificiais, ela finalmente se sente forte e necessária. Aos poucos, passa até a enxergar Bradley com outros olhos, num jogo de atração e repulsa que o filme explora sem pudor e sem medo de parecer politicamente incorreto.

Muito disso funciona graças à química impressionante entre Rachel McAdams e Dylan O’Brien. As atuações têm naturalidade, timing cômico afiado e uma entrega física que lembra o cinema dos anos 80, quando atores precisavam se sujar de verdade. O roteiro oferece sacadas inteligentes, mas são eles que transformam o exagero em algo crível. Enquanto Bradley enfrenta o caos como um pesadelo pessoal, Linda parece ter encontrado seu habitat ideal, lidando com tudo com humor e otimismo — e, claro, desfrutando da nova posição de poder sobre quem antes a diminuía.

Tecnicamente, o filme também é impecável. A fotografia de Bill Pope transforma paisagens paradisíacas em cenários cada vez mais opressivos, como se o paraíso estivesse apodrecendo diante dos nossos olhos. Quando a chuva e o barro tomam conta da tela, Sam Raimi convoca o espírito de “Arrasta-me Para o Inferno” e entrega um duelo brutal, em que o terror assume sua forma mais clássica e visceral, lembrando que o riso pode ser apenas outra face do pavor.

Por tudo isso, “Socorro” se destaca como um terrir raro: atuações excelentes, roteiro afiado, humor no tempo certo e uma direção frenética que jamais deixa a narrativa esfriar. Há pausas, sim, mas elas existem para que as explosões seguintes tenham impacto máximo — estratégia que poucos diretores dominam. O cineasta prova mais uma vez que, quando está em casa, ninguém mistura riso e medo como ele, lembrando que o terror não precisa ser solene para ser genial.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Socorro! (Send Help)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.5/10) Ótimo
Direção: Sam Raimi
2025 ‧ Terror/Comédia ‧ 1h53m

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