
Eu mordi a língua. Depois de “Me Chame Pelo Seu Nome”, confesso que fiquei saturado com a insistência de Hollywood em entregar grandes papéis a Timothée Chalamet. Durante muito tempo, eu não conseguia enxergar todo esse talento que a indústria dizia ver nele. Na minha visão, parecia haver mais um grande assessor por trás de sua carreira do que, necessariamente, um ator que justificasse tamanha aposta — ainda que ele tenha sido realmente incrível no filme de Luca Guadagnino. Depois disso, vieram vários projetos nos quais eu via basicamente a mesma perfomance, o mesmo Timothée de sempre. Algo q definitivamente não acontece em “Marty Supreme”, onde o ator parece ter se entregado de corpo e alma ao personagem.
E a minha surpresa não se limitou apenas à sua atuação. “Marty Supreme” não é apenas mais um filme feito sob medida para empurrar um Oscar para um ator, mas também um excelente trabalho de direção de Josh Safdie. Conhecido por “Bom Comportamento” e “Joias Brutas”, agora trabalhando sem o irmão Ben Safdie, o diretor prova que o talento não dependia exclusivamente da dupla.
Aqui, ele constrói um filme seguro, caótico e extremamente autoral. Ainda que não seja nada inovador, é impossível não lembrar de obras que exploram esse frenesi incessante por algo, como “Whiplash”, ou de filmes que abordam a figura do golpista, como “Prenda-me Se For Capaz”. A diferença está justamente na forma como Josh Safdie conduz essa narrativa: ele nunca se limita ao arquétipo do gênio obcecado que precisa aperfeiçoar seu talento, como em “Whiplash”, nem ao golpista puro e carismático de “Prenda-me Se For Capaz”. Em “Marty Supreme”, existe um personagem muito mais dúbio e complexo, fruto da competência de um roteiro que se recusa a ser didático, permitindo um estudo psicológico mais profundo — algo potencializado, também, pela excelente atuação de Timothée Chalamet.
E a minha surpresa não se limitou apenas à sua atuação. “Marty Supreme” não é apenas mais um filme feito sob medida para empurrar um Oscar para um ator, mas também um excelente trabalho de direção de Josh Safdie. Conhecido por “Bom Comportamento” e “Joias Brutas”, agora trabalhando sem o irmão Ben Safdie, o diretor prova que o talento não dependia exclusivamente da dupla.
Aqui, ele constrói um filme seguro, caótico e extremamente autoral. Ainda que não seja nada inovador, é impossível não lembrar de obras que exploram esse frenesi incessante por algo, como “Whiplash”, ou de filmes que abordam a figura do golpista, como “Prenda-me Se For Capaz”. A diferença está justamente na forma como Josh Safdie conduz essa narrativa: ele nunca se limita ao arquétipo do gênio obcecado que precisa aperfeiçoar seu talento, como em “Whiplash”, nem ao golpista puro e carismático de “Prenda-me Se For Capaz”. Em “Marty Supreme”, existe um personagem muito mais dúbio e complexo, fruto da competência de um roteiro que se recusa a ser didático, permitindo um estudo psicológico mais profundo — algo potencializado, também, pela excelente atuação de Timothée Chalamet.
O longa é inspirado no icônico jogador de tênis de mesa Marty Reisman (1930–2012), conhecido por suas habilidades extraordinárias e por uma carreira longa, marcada por episódios curiosos. Na trama, Marty Mauser (Timothée Chalamet) é um jovem com uma ambição desmedida, disposto a tudo para realizar seu sonho e provar ao mundo que nada é impossível para ele.
A apresentação inicial já define o tom do filme. Marty trabalha em uma loja de sapatos quando uma mulher aparece dizendo ter esquecido um par. Ele dispensa o vendedor que a atendia e leva a desconhecida para o estoque, onde os dois transam ali mesmo. É um começo provocador, quase grotesco, que deixa evidente o impulso transgressor do protagonista. Logo depois, ao som de “Forever Young”, os créditos surgem acompanhados por imagens de espermatozoides — uma escolha estética escancarada, que mistura humor, sexualidade e pretensão, resumindo perfeitamente o espírito do filme.
Essa não é apenas mais uma história hollywoodiana clichê de superação. Estamos falando de um filme de Josh Safdie e, para quem acompanha sua filmografia, é evidente que ele se interessa muito mais por personagens corrompidos, instáveis e moralmente falhos do que por narrativas edificantes sobre homens decentes em busca de seus sonhos.
Em “Marty Supreme”, o protagonista é petulante, inconsequente, obsessivo e fará de tudo para conquistar o que almeja — inclusive mentir, aplicar golpes e se humilhar de verdade. Mas o filme não se resume a um retrato raso de um golpista oportunista. Marty realmente acredita em seu potencial. Ele acredita no próprio talento e, dentro da sua lógica distorcida, vê seus atos como meios legítimos para alcançar um objetivo maior.
O roteiro é inteligente ao não optar por um desfecho óbvio, mantendo-se nesse território ambíguo entre condenação e empatia, o que permite uma certa humanização do personagem.
Em vários momentos, odiamos Marty. Ainda assim, conseguimos sentir empatia por sua trajetória — e isso se deve muito ao trabalho impressionante de Timothée Chalamet. Ele dá vida a um personagem cheio de nuances e contradições, e quem acredita que um papel assim é fácil apenas por ser mais histriônico talvez precise repensar o que é atuação.
O ator transita com naturalidade entre o alívio cômico, a angústia interna e explosões de ego e arrogância. Sustentar tantas camadas e conduzi-las com precisão até o ápice de uma partida de tênis de mesa que prende nossa atenção até o último segundo definitivamente não é para qualquer um. Soma-se a isso o fato de Chalamet ter aprendido a jogar tênis de mesa para o papel, resultando também em um trabalho físico notável. Honestamente, temo pelos concorrentes deste ano: se ele não vencer, será um vexame para o Oscar.
O filme também se destaca ao explorar as relações que Marty constrói ao longo de sua trajetória. Seus envolvimentos com Rachel Mizler (Odessa A’zion), Kay Stone (Gwyneth Paltrow), o amigo Wally (Tyler, the Creator) e Milton Rockwell (Kevin O’Leary) ampliam a narrativa para além do esporte. Essas relações revelam como Marty lida com as pessoas ao seu redor e adicionam uma carga dramática potente, intensificando ainda mais o caos de sua jornada.
Falando em caos, ele é uma presença constante no longa. Além da direção precisa de Josh Safdie, a trilha sonora de Daniel Lopatin é um elemento fundamental. O compositor entrega um trabalho excepcional, que não apenas cria tensão, mas potencializa os momentos de virada da narrativa. Suas composições vibrantes funcionam quase como uma extensão do estado emocional de Marty Mauser, como se a música traduzisse aquilo que se passa dentro da mente do protagonista. Além disso, as ótimas escolhas de músicas dos anos 80.
Em determinado ponto da história, Marty perde um jogo importante para o tenista japonês Endo e sofre um surto, afirmando que a partida não foi real, nem justa. Esse momento é crucial, pois o nome de Endo retorna mais adiante, culminando em uma partida final que garante alguns dos minutos mais angustiantes do filme. Se a partida de tênis em “Rivais” foi extremamente envolvente, o mesmo acontece aqui — mas sem a elegância e o apelo sensual do filme de Guadagnino. “Marty Supreme” aposta nos nervos à flor da pele e na tensão da possível derrota, que envolve, inclusive, a humilhação de beijar um porco caso Marty perca.
Antes disso, o personagem já é exposto ao ridículo diante de bilionários em uma cena inacreditavelmente humilhante, que evidencia o quanto ele já se afundou em sua própria obsessão.
A narrativa então mergulha de vez em uma espiral sufocante. Marty reencontra a mulher que engravidou e ignorou por meses; o marido dela percebe o clima entre os dois, tornando a situação insustentável. Em outra sequência, o filme abraça o absurdo por completo: o teto de um lugar desaba, e Marty cai junto com uma banheira para outro banheiro, interrompendo um senhor que dava banho em seu cachorro. A direção captura com precisão essa sensação constante de colapso iminente.
O caos atinge seu auge quando Marty e Wally trapaceiam em uma partida. Descobertos, são perseguidos pelos garotos enganados. A montagem assume um ritmo frenético, tudo sai do controle — inclusive o cachorro que os acompanha, que acaba caindo do carro no meio da confusão. É o filme expondo, sem pudor, as consequências da irresponsabilidade de seus protagonistas.
“Marty Supreme” é incômodo, exagerado e caótico por escolha. Ao transformar a trajetória de um homem em uma sucessão de episódios constrangedores, o filme constrói uma crítica ácida à obsessão pelo sucesso, ao culto da performance e à necessidade desesperada de validação. É uma experiência que provoca riso, desconforto e, em certos momentos, uma estranha compaixão por alguém que nunca soube a hora de parar.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Marty Supreme
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ — (10/10) Excelente
Direção: Josh Safdie
2025 ‧ Esporte/Drama ‧ 2h 29m