
Eu nem vou entrar na polêmica de que o personagem Heathcliff (Jacob Elordi), nessa adaptação, não seja cigano, indiano, chinês, americano, espanhol ou tenha uma cara azul igual à de um Smurf, até porque, durante diversas representações no cinema, ele sempre foi retratado como caucasiano. E a etnia dos personagens nunca foi algo que me incomodou em nenhuma narrativa. Eu posso adorar Harry Potter com a Hermione branca ou negra, e pouco me importa se o Snape da nova série de Harry Pottervai ser negro. O que eu quero ver em tela é uma boa releitura ou adaptação — o que não é o caso de “O Morro dos Ventos Uivantes”, que tem muito mais problemas do que a etnia de um personagem principal.
Esse filme já prepara o espectador com o seu tom logo na cena de introdução. Quando há um enforcamento seguido de uma excitação involuntária, algo fica claro: não estamos diante de um romance de época convencional, mas de uma obra que quer, antes de tudo, provocar, tensionar o desejo e a violência no mesmo espaço.
A diretora Emerald Fennel deixa claro que essa é a sua visão da história clássica, e busca se desenvencilhar de situações presentes na obra literária para contar a sua própria versão. Em parte isso é interessante, porque a promessa é ousada, mas a execução, nem tanto. Eu deveria ter esperado isso dessa releitura. Afinal, a cineasta parece estar cada vez mais entregando filmes que se aprofundam na estética, mas deixam suas narrativas vazias, como é o caso de “Saltburn”, que, embora eu goste e ache um ótimo entretenimento, fica muito aquém do seu primeiro filme, “Bela Vingança”.
O filme conta a história das famílias Earnshaw e Linton, centrada em Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). Um romance intenso surge para destruir a vida dos dois jovens. O filho adotivo do inquilino e Catherine entram em um jogo de obsessão, rejeição e vingança, ao mesmo tempo em que tentam se distrair com essa louca paixão.
No primeiro ato, a infância de Cathy e Heathcliff até ensaia uma dinâmica interessante, ao acompanharmos ela tentando alfabetizá-lo e ele resistindo com seu temperamento selvagem.
Há momentos que buscam chocar, como quando Cathy observa um casal fazendo sexo, em uma cena que praticamente nos remete a uma versão de época de “50 Tons de Cinza”. Nesse momento, Heathcliff surge para cobrir seus olhos, enquanto está por cima de Cathy. Esse momento representa um gesto que mistura proteção e posse. Depois, quando ela se refugia nas montanhas para explorar o próprio corpo e ele a encontra dizendo que pode farejar cada passo seu, como um cão, declarando que ela lhe pertence, o filme flerta com o erotismo. Mas tudo é filmado como um grande ensaio de moda: belo, com uma fotografia exuberante, mas com uma frieza que torna a emoção distante.
Quando Cathy se casa com Linton (Shazad Latif), a narrativa começa a se fragmentar. A passagem do tempo é mal resolvida, tirando o peso dramático, e, com isso, o filme soa desorganizado. As cenas entre Cathy e Linton são tão constrangedoras que parecem saídas de uma novela de baixa qualidade, mas sem o charme do exagero assumido.
O reencontro entre Cathy e Heathcliff, que deveria ser o ponto alto, não provoca nada além da constatação de que são dois atores lindos em uma fotografia bonita. E esse ápice não acontece porque falta química além da beleza visual dos dois pombinhos juntos. Falta aquela dimensão arrebatadora que romances populares como “Titanic” conseguem alcançar, ou mesmo a entrega sentimental despretensiosa de “Como Eu Era Antes de Você”.
A artificialidade volta a incomodar em cenas como a do balanço com Cathy, que parece saída de um catálogo de bonecas vitorianas. Curiosamente, quando o filme abandona a saturação e mergulha numa fotografia mais escura e menos chamativa, tudo melhora. A atmosfera ganha um pouco de densidade, além da naturalidade estética que falta no primeiro e no segundo ato.
As cenas de sexo entre Cathy e Heathcliff são coreografadas com sensualidade e embaladas como pequenos números musicais. São bonitas de olhar, mas artificiais, lembrando mais um videoclipe musical que não tem emoção para nos passar, além das músicas que embalam os momentos.
Na reta final, quando Heathcliff se casa com Isabela (Alison Oliver), há momentos em que o filme flerta com um thriller, que, ao meu ver, são eficientes e poderiam ter ganhado maior dimensão. Mas, infelizmente, é algo que foi desperdiçado em um romance que apressa situações e nunca nos envolve de verdade. A trilha pesa, a fotografia escurece e a tensão entre eles finalmente sugere algo mais perturbador. Mas esses acertos se perdem em escolhas questionáveis, como a cena em que Isabela aparece rendida e reduzida a uma submissão quase caricata, conduzida de forma tão exagerada que beira o patético.
E, quando os acontecimentos se aceleram no desfecho, o drama perde ainda mais força. Falta desenvolvimento, falta tempo para que a tragédia respire. No final das contas, a paixão que deveria ser devastadora é apenas visual, porque nos entrega closes de um casal bem vestido que daria um belíssimo ensaio fotográfico. E, para uma história que atravessou séculos justamente pela intensidade emocional, isso é puro desperdício de potencial. “O Morro dos Ventos Uivantes” é um filme que tenta ser visceral, mas acaba sendo apenas pura estética.
Confira o trailer:
🍿 Filme: O Morro dos Ventos Uivantes (Wutheing Heights)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ — (5.0/10) Mediano
Direção: Emerald Fennel
2026 ‧ Romance ‧ 2h 16m