
“É Assim Que Acaba” é o mais novo filme estrelado por Blake Lively e dirigido, além de atuado, por Justin Baldoni. Adaptado do livro de mesmo nome, a história precisava de um diretor mais experiente em dramas, pois este é apenas o terceiro longa de Baldoni, que tem mais experiência em romances açucarados. Ao ver o que foi executado neste projeto, fica uma sensação de amadorismo ao lidar com questões pertinentes e sérias, como as que o filme propõe.
Na trama, Lily Bloom (Blake Lively) decide começar uma nova vida em Boston e tenta abrir seu próprio negócio. Como consequência dessa mudança, ela acredita ter encontrado o amor verdadeiro com Ryle (Justin Baldoni), um charmoso neurocirurgião. Mas tudo muda, quando Lily reencontra um antigo amor do passado.
O filme foi cercado por polêmicas nos bastidores, e essas polêmicas realmente parecem ter impactado a condução da narrativa. Isso porque Justin Baldoni, diretor e ator, queria contar a história de um homem abusivo e de um relacionamento tóxico, mostrando como a mulher e torna vítima nesses casos.
O problema é que Blake Lively interveio na forma como essa adaptação deveria ser conduzida. Apesar do roteiro ter sido escrito por Christy Hall, a atriz buscou intervir no processo, e recomendar uma abordagem mais neutra para tornar o filme mais comercial. Isso se tornou um grande obstáculo, especialmente quando o filme aborda uma temática tão complexa.
Narrativamente, o filme tenta se esquivar dos momentos em que o protagonista seria mostrado como agressivo, algo que só é de fato ilustrado na reta final, quando a protagonista tem flashes de memórias que remetem a esses abusos, os quais não vemos ao longo da história.
Essa escolha de conduzir a narrativa faz com que, durante mais de uma hora, quem não leu o livro ou não sabe sobre o que se trata a história, não perceba que o personagem de Baldoni é um homem abusivo. O foco está muito mais no passado da protagonista, que ressurge no meio de seu romance com Ryle, desviando a atenção da questão central do abuso físico e moral.
Para piorar, quando a personagem se lembra dos abusos — que não foram mostrados diretamente —, a narrativa continua normalmente, como se fosse algo corriqueiro. E, ao decidir romper com o relacionamento, o personagem de Baldoni simplesmente sai de cena, sem demonstrar a agressividade que, em teoria, teria exibido ao longo de toda a trama. As agressões são reveladas apenas nos rápidos flashbacks, que as ilustram de forma superficial.
Os atores estão bem. Blake Lively, como de costume, entrega-se de corpo e alma à personagem, e é evidente a forma como ela transmite as emoções de Lily, assim como a atriz novata Isabela Ferrer, que convence na pele da protagonista mais jovem.
Por outro lado, Justin Baldoni não convence nos diálogos, soando como uma caricatura de um par romântico grudento e meloso. Ele tem seu charme nas cenas sensuais, embora estas sejam abruptamente cortadas por decisão da produção.
O aspecto da atração física e química entre os dois deveria ser um dos pontos fortes, algo que poderia ter sido mais explorado. Isso também enfraqueceram a construção dessa relação intensa e passional.
É curioso lembrar que, anos atrás, a sensualidade era bastante explorada em filmes, como no questionável “50 Tons de Cinza”, entre outros. No entanto, com o crescimento do conservadorismo e, especialmente, com novas pesquisas apontando que a geração Z não aprecia cenas de sexo, esse pode ter sido um fator predominante para a redução desse elemento na estrutura dos filmes.
“É Assim que Acaba” perde muito ao não explorar com mais profundidade as questões de abusos físicos e psicológicos vividos pelos personagens, especialmente porque isso faz parte do passado de vários deles, incluindo o ex-namorado de Lily. Todos passaram por momentos difíceis em suas vidas, mas essas experiências são ilustradas de maneira superficial, o que impede a narrativa de alcançar a intensidade que poderia ter.
O longa tenta se moldar a um romance comum, desconsiderando sua base principal de abuso. Colocar excesso de açúcar em um filme que deveria ser mais amargo não é uma boa combinação—é como servir um Negroni com açúcar. Algumas histórias precisam ser amargas, e ao tentar adoçar uma narrativa que deveria carregar um peso essencial, o filme acaba perdendo sua razão de sua existência.
Confira o trailer:
🍿 Filme: É Assim Que Acaba (It Ends With Us)
📺 Onde assistir: Max
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Mediano
Direção: Justin Baldoni
2024 ‧ Romance/Drama ‧ 2h 11m
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