
É frustrante ter admitir que não gostei de “Megalopolis”, um projeto ambicioso que demorou 40 anos para sair do papel, que enfrentou problemas ao longo desse caminho, e que foi financiado pelo próprio bolso do diretor Francis Ford Coppola.
E não considero que seja o caso de um filme divisivo, daqueles que poderiam agradar a muitos, mas não a mim. Trata-se, sem dúvida, não apenas do pior filme da carreira do diretor, mas também de um dos piores dramas de fantasia que já assisti.
A história gira em torno de César Catilina (Adam Driver), um arquiteto megalomaníaco e egocêntrico que, após um desastre devastador, sonha em reconstruir Nova York como uma utopia autossustentável, onde a cidade cresce organicamente junto com seus habitantes. Para concretizar esse plano, César precisa contornar os interesses de figuras ricas e corruptas e convencer o prefeito de Nova Roma – nome da cidade reimaginada – Franklyn Cicero (Giancarlo Esposito) a apoiar suas ideias. Nesse épico moderno, Coppola tenta criar uma fábula sobre o poder, ambientada em um cenário futurista caótico e frenético.
A premissa é fascinante, e eu jamais esperaria um resultado tão medíocre, considerando a trama base, que poderia ter dado origem a algo inédito e visualmente estonteante – impressão que os trailers pareciam reforçar. Infelizmente, o filme entrega bem menos do que promete. Há um tom teatral em muitas cenas, algo que a princípio temi que me incomodasse, mas, curiosamente, acabou sendo o menor dos problemas. Há alguns acertos, como uma longa cena em que César observa o declínio da cidade de dentro de seu carro, enquanto luzes alternam cores e efeitos de esculturas se desfazem do lado de fora, criando uma atmosfera quase hipnótica. A narração de Laurence Fishburne também contribui, sugerindo uma trama promissora, que, por um breve momento, parece ganhar profundidade.
No entanto, após essa sequência, o filme se desvia da premissa de reconstrução e mergulha em conflitos políticos abordados de forma superficial e apressada, reduzindo tudo a mensagens sobre amor e o tempo. A tentativa de incluir um romance visa trazer emoção, mas falha em ser convincente ou comovente. Não tenho problema com pieguices, desde que bem executadas – como em Titanic de James Cameron, onde o clichê do romance é superado pela química entre o casal e pela paixão do diretor, ou em Interestelar, que explora com honestidade a mesma mensagem de amor e tempo.
“Megalopolis” fracassa ao tentar abordar diversos temas e personagens, recorrendo a frases feitas de Marco Aurélio que, pouco a pouco, esvaziam a grandiosidade pretendida, substituindo-a por simplificações ingênuas. Isso não seria um problema, caso o filme tivesse alma, mas o elenco não cativa, a química entre os personagens é inexistente e a montagem fragmenta as histórias, que parecem sempre deslocadas e abruptamente interrompidas.
A estética, que eu acreditava ser o ponto alto do filme, também decepciona. Não é tão inventiva quanto sugerido no material promocional.
A fotografia, que tenta explorar tons dourados e luminosos, lembra até alguns elementos visuais de “Fonte da Vida”, de Darren Aronofsky – outro filme que explora o amor como força de salvação, mas sem o viés político. Em outros momentos parece um comercial de perfume Paco Rabanne, e nessa tentativa visual ambiciosa, sem uma forte narrativa, tudo se torna ainda mais superficial, como se estivéssemos vendo um comercial estendido.
“Megalopolis” se aproxima de um filme experimental, e eu não teria problema com isso, caso a experiência fosse coerente. Existem outros filmes que desafiaram os padrões da indústria sem comprometer a qualidade.
A rejeição inicial das distribuidoras talvez tenha gerado uma falsa expectativa de que esse fosse um projeto incompreendido e inovador pelo público. Mas esse não é o caso. É um longa mal organizado, histriônico e pretensioso, que falha em realizar seu próprio potencial.
A verdade é que cineastas como Clint Eastwood, aos 94 anos, ainda entregam filmes menos ambiciosos, como “A Mula” e “Cry Macho”, mas que trazem uma vivacidade e paixão que me fazem suspirar diante da tela. Da mesma forma, Ridley Scott, aos 86 anos, que alterna entre sucessos e fracassos, conseguiu despertar em mim fortes emoções com seu épico “O Último Duelo”, de 2021.
O que mais me choca em meio a todo o desastre que é “Megalopolis”, é que algumas pessoas realmente se iludem tentando encontrar acertos, como se os erros fossem intencionais por parte do diretor. Isso mostra como algumas pessoas se esforçam para defender uma obra apenas por causa de um nome: Francis Ford Coppola. Gostaria de ver a reação se esse mesmo projeto desvirtuado, tivesse sido feito por um diretor novato — uma parte dos novos críticos, certamente teriam sido muito mais severos.
Talvez o resultado do ambicioso projeto de paixão de Copolla sirva para mostrar ao diretor que é hora de reconsiderar seu foco e talvez explorar histórias reais, adaptações ou narrativas mais simples e eficazes. O ego de ser considerado um grande diretor pode fazer alguém acreditar que é capaz de alcançar sempre grandes resultados, mas talvez seja o momento de redescobrir a beleza das pequenas, mas poderosas histórias. Às vezes, é melhor não arriscar do que colocar em tela, um circo em forma de pesadelo.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Megalopolis
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ – (3.0/10) Ruim
Direção: Francis Ford Coppola
2024 ‧ Ficção científica/Drama ‧ 2h 18m
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