“Ainda Estou Aqui” partiu meu coração em pedaços

“Ainda Estou Aqui” é o novo filme de Walter Salles (“Central do Brasil”), e ao final da sessão, meus olhos estavam marejados. Durante boa parte da trama, senti um nó na garganta, como se tivesse perdido um ente querido da mesma forma que Eunice Paiva. E não, isso não é um spoiler, pois trata-se de uma história verídica.

A trama se passa no início da década de 1970, quando o Brasil vivia o endurecimento da ditadura militar. No Rio de Janeiro, a família Paiva — Rubens, Eunice e seus cinco filhos — mora à beira da praia, em uma casa de portas abertas para os amigos. Certo dia, Rubens Paiva é levado por militares à paisana e desaparece.

Independentemente de qualquer ideologia política, este filme fala sobre vida, luto e a importância de registrar os melhores momentos com quem amamos.

Admiro como a direção explora esses registros, seja por meio de câmeras que capturam os momentos felizes da família, seja através de fotos que retratam tanto os dias tranquilos quanto os instantes de ruptura, ressaltando a importância de preservar essas memórias únicas, sem saber se serão eternas. Essa sensibilidade na estrutura narrativa é um dos grandes méritos de Walter Salles, que domina a arte de trabalhar esses elementos em prol da história central.

Embora toda essa delicadeza esteja presente no primeiro ato, a forma como o cotidiano é apresentado acaba soando repetitiva em alguns momentos, o que não contribui tanto para o desenvolvimento da trama. Parece uma tentativa forçada de nos aproximar do personagem de Selton Mello, para que sintamos sua ausência posteriormente.

Entendo que a narrativa foi construída a partir da perspectiva de Eunice Paiva, sem mostrar completamente as questões que envolviam seu marido. No entanto, acredito que teria sido interessante intercalar esses momentos felizes com um senso de urgência, antecipando o que viria a ocorrer com o ex-deputado Rubens Paiva.

O ponto de virada acontece quando os militares invadem a casa de Eunice Paiva para levar seu marido. Nesse instante, senti uma conexão mais profunda com os personagens, especialmente porque a dor e o medo de cada um são explorados de forma intensa. É aqui que Walter Salles atinge um realismo mais palpável, algo que senti faltar no primeiro ato. Capturar momentos de felicidade natural é um desafio, pois requer um entrosamento genuíno do elenco.

O drama que se desenrola durante o confinamento na casa transmite um forte senso de impotência, especialmente através da personagem de Fernanda Torres. À medida que a casa se torna um espaço escuro e opressivo, a sensação de desesperança é magnificamente amplificada pela direção de arte e pela escolha das sombras. Nessa hora, pude sentir o quanto deve ter sido devastador ter sua privacidade violada e ver um ente querido ser levado, sem qualquer garantia de retorno.

A partir desse infortúnio, acompanhamos o impacto que ele causa na personagem vivida magistralmente por Fernanda Torres. Durante os interrogatórios, é possível perceber, através de suas expressões faciais, um turbilhão de emoções: medo, impotência, indignação e a angústia de não entender plenamente o que está acontecendo com ela, seu marido e sua filha, que também foi levada ao mesmo local.

Toda a sequência em que sua personagem é mantida em uma solitária amplifica ainda mais o desespero, especialmente porque ela já estava lidando com o desaparecimento do marido. Quando Eunice se vê arrastada para esse pesadelo, sentimos intensamente o quanto essa situação deve ter sido dolorosa para ela, tanto como mulher quanto como mãe.

É interessante observar como a trilha sonora é utilizada de forma criteriosa, surgindo apenas em momentos-chave, enquanto o silêncio se torna um elemento essencial na construção da narrativa. Esse uso estratégico do silêncio não apenas intensifica a atmosfera, mas também reflete o vazio existencial que consome a protagonista, um vazio tão profundo que chega a silenciar até mesmo os sons cotidianos de sua vida.

Um dos momentos mais impactantes é quando a família é chamada para uma sessão de fotos para uma revista, com a orientação de que não deveriam sorrir. Em resposta a essa imposição, Eunice decide que seus filhos devem, sim, sorrir. Esse gesto, aparentemente simples, é um ato de resistência — um grito silencioso que se manifesta em uma atitude madura e equilibrada.

Eunice deixa claro que, apesar da perda irreparável que sofreram, há algo que nunca poderá ser tirado deles: a capacidade de encontrar felicidade, mesmo em meio ao caos. É como se, através daquela imagem, Eunice afirmasse que, por mais que tentassem destruí-los, ela foi capaz de criar seus filhos sozinha, preservando não apenas sua integridade emocional, mas também a deles, demonstrando uma força inabalável diante das adversidades.

Embora o ato final conte com a presença da atriz Fernanda Montenegro em uma cena que claramente busca manipular nossas emoções até o limite — especialmente quando ela, debilitada em uma cadeira de rodas, assiste a um noticiário que exibe imagens de seu marido Rubens Paiva —, não houve como resistir.

Eu fui completamente levado pelas decisões de roteiro e direção, mesmo reconhecendo a estratégia manipulativa que capta a emoção do espectador: o uso da trilha sonora em volume alto, a presença da atriz Fernanda Montenegro em uma idade avançada, sem conseguir proferir uma única palavra. Ainda assim, essa cena não deixava de ser um espelho cruel da realidade que Eunice viveu.

Ela envelheceu sem o direito de ver justiça sendo feita, sem recuperar o bem mais precioso de sua vida e de sua família: o marido que perdeu em nome de ideologias políticas. Essa dor é autêntica, e ainda ecoa na nossa história. Eu terminei a sessão do cinema comovido pela dor dessa história real.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Ainda Estou Aqui
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ruim

Direção: Walter Salles
2024 ‧ Thriller/Drama ‧ 2h 17m

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