
“Homem com H” é, sem dúvida, a melhor cinebiografia brasileira que já assisti, e uma das melhores dentre todas já lançadas. Essa excelência é fruto de uma direção magistral de Esmir Filho e da atuação espetacular de Jesuíta Barbosa. Ele encarna com profundidade o ícone da música nacional Ney Matogrosso, não apenas por vestir as roupas ou reproduzir os gestos e a dança de Ney Matogrosso, mas porque ele não transforma o artista em uma caricatura. Jesuíta consegue captar com uma naturalidade impressionante a essência de Ney, a ponto de, em muitos momentos, parecer que estamos diante do próprio cantor. Se você comparar as performances reais com as do filme, vai se pegar pensando: “Quem é quem?” Essa fusão entre ator e personagem, quando feita com tanta verdade, é rara — e é justamente isso que torna essa cinebiografia tão extraordinária. Poucas vezes se vê algo assim no cinema.
Toda essa entrega do ator também nasce de uma direção inspirada, que entende o corpo como linguagem. A câmera sabe exatamente onde mirar, focando no quadril, enquanto a luz esculpe cada movimento com intenção. A sensualidade no palco deixa de ser apenas estética — vira discurso, sentimento e parte viva da narrativa.
O filme retrata a infância turbulenta do jovem Ney, marcada pelo relacionamento conturbado com um pai preconceituoso. Em uma das cenas, o pai afirma que o filho não será artista por não querer um “filho viado”; à resposta do menino, “pedreiro também pode ser viado”, fica clara a coragem do protagonista em confrontar o pai e reafirmar sua identidade.
O roteiro habilmente aborda essa relação conflituosa, evidenciando a coragem de Ney ao lidar com problemas profundos, como a insistência do próprio pai, que o força a chorar, enquanto ele, desde pequeno, demonstra uma força interior admirável, permanecendo resistente em meio à agressão psicológica e física.

Quando adolescente, uma briga acalorada entre os dois culmina na decisão de Ney de abandonar a casa. Ao sair de casa, Ney resolve ingressar na Aeronáutica, onde conhece um jovem por quem se apaixona. A delicadeza dessa relação, retratada com sensibilidade, evita qualquer sensação de apelo barato, transmitindo de forma autêntica a eletricidade e o desejo latente entre ambos.
O filme utiliza com maestria a passagem do tempo, mostrando Ney em diferentes fases de sua vida, incluindo seu relacionamento com um homem mais velho, marcado inicialmente por comportamentos abusivos que evoluem para conflitos mais profundos. Em um momento, Ney afirma sua determinação de vestir o que quiser, olhar para quem desejar e fazer o que sentir, evidenciando sua busca por liberdade e autenticidade — traços que o acompanharão até o palco, onde suas demonstrações de expressão exuberante se tornam uma extensão de sua libertação interior.Os seus olhares, o uso do maquiagem, roupas brilhantes e ousadas representam momentos em que Ney busca externalizar aspectos de sua personalidade que não se mostram na rotina. Essas ações são reforçadas em cenas marcantes, como a discussão com Cazuza, após aparecer drogado, acompanhado de amigos.
Ainda que excêntrico na performance, Ney sempre demonstra responsabilidade e consciência na vida pessoal e artística, algo que o filme retrata com intimidade e respeito.
A transição para a banda Secos e Molhados marca a busca por uma identidade mais animalesca, uma forma de expressar emoções intensas e se destacar no cenário musical. Jesuíta Barbosa entrega uma atuação impressionante, um dos seus trabalhos definitivos de sua carreira, com movimentos corporais, olhares e gestos que capturam a essência do artista.
Segundo o próprio ator, sua preparação envolveu assistir a inúmeros vídeos de Ney, mas o que realmente fez a diferença foi o contato direto: encontrá-lo pessoalmente, observando cada detalhe de sua personalidade.
Apesar da ousadia de Ney naquela época ter provocado censura e críticas, sua coragem nunca se deixou intimidar. Essas tentativas de repressão apenas fortaleceram sua vontade de desafiar convenções, impulsionado por uma convicção inabalável na sua arte. Após o fim da banda, sua expressividade animalizada se intensifica: em certos momentos, aparece quase desnudo, realizando movimentos eróticos que voltam a confrontar os limites do público e da censura — cenas dirigidas com precisão, focando em detalhes sensuais que elevam a performance a uma obra de arte.
A apresentação da música Homem com H apresenta uma coreografia marcante, acompanhada por uma iluminação que alterna entre sombras e luzes. Essas mudanças iluminam momentos de intensa sensualidade, incluindo uma cena quente de sexo, que, embora provocante, mantém-se distante do vulgar.
As cenas de sexo no filme, inclusive, não são apenas bem coreografadas e filmadas com capricho. A iluminação é cuidadosa, os ângulos valorizam o corpo de forma sensual, mas sem cair no apelativo. Mais do que estética, essas cenas fazem parte essencial da trajetória de Ney Matogrosso.

O sexo aqui tem significado. É importante na sua primeira vez, na descoberta da primeira paixão e até em momentos que envolvem o destino de amigos próximos, dentro de um contexto histórico específico. Em nenhum momento ele é tratado de forma banal ou gratuita. Pelo contrário: é um elemento narrativo que contribui para construir Ney como um ser humano completo, e não apenas como artista.
Outra apresentação marcante no palco, embora não tão impactante quanto essa, foi a de Pro Dia Nascer Feliz, que se destacou por sua produção repleta de luzes e efeitos brilhantes, transmitindo uma energia vibrante e vivida.
O último ato do filme diverge da trajetória de ascensão meteórica do artista para abordar um período marcado pelo crescimento dos casos de HIV, revelando como muitos de seus amigos se tornaram vítimas dessa tragédia. Essa fase final é carregada de dramaticidade e emoção, dificultando não sentir o peso daquele momento. É quase inevitável não se deixar envolver pelas emoções, até mesmo lágrimas podem rolar — como aconteceu comigo, especialmente na cena em que Marco, um de seus relacionamentos, revela como está após descobrir sua doença. Essa fala constitui um dos diálogos mais sensíveis e tocantes de toda a narrativa.
“Homem com H”, assim como Ney Matogrosso, é um filme carregado de eletricidade, sensualidade e liberdade. E isso não está apenas no retrato do artista, mas também em sua linguagem visual. A cinebiografia expressa com intensidade as emoções, os sentimentos e a essência desse ícone, indo muito além da música. O longa não se limita a narrar sua ascensão meteórica no cenário musical. Ele mergulha em suas relações pessoais, suas conexões afetivas, familiares e na construção de um personagem que ultrapassa o palco — há um ser com alma, e essa alma é traduzida com sensibilidade na tela.
É isso que torna o filme tão especial diante de tantas outras cinebiografias. A sensação que fica é de orgulho: de testemunhar não só o talento de Ney, mas também a habilidade do diretor em transformar tudo isso em cinema. Não é um filme fácil de fazer. Basta lembrar de “Bohemian Rhapsody”, que, apesar de ser um filme que gosto, não conseguiu captar toda a complexidade de Freddie Mercury e da banda. Ficou restrito à trajetória musical. Já “Homem com H” é um filme completo — e é justamente isso que o torna tão marcante.
Confira o trailer:
Confira a análise em video:
🍿 Filme: Homem com H
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente
Direção: Esmir Filho
2025 ‧ Cinebiografia/Drama‧ 2h 10m
Tô doida para assistir!
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Eu achei fantástico! Espero que goste tanto quanto eu, depois me conta o que achou!
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Pelo pouco que vi, Jesuíta está impressionante. E Ney é o maior intérprete que o Brasil tem, superior até a Elis Regina (o que não é nenhum demérito dela, que também é excelente).
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