A volta triunfal do absurdo: por que “Premonição 6: Laços de Sangue” é tão bom?

A franquia “Premonição” nunca teve, na minha opinião, um filme realmente ótimo. Mas dentro das suas limitações, sempre entregou obras de terror extremamente divertidas, que exploram o lado mais mórbido do espectador: aquele prazer quase culpado de se entreter com mortes absurdamente criativas. Seja pelo espanto de imaginar que alguns dos acidentes poderiam acontecer — em versões menos exageradas, claro — ou pela engenhosidade assustadora com que cada cena é executada, a verdade é que a série sempre soube transformar o medo em espetáculo. Dito isso, preciso admitir: esse sexto capítulo se tornou um dos meus favoritos. E ao longo desta análise, vocês vão entender o porquê.

A trama gira em torno de Stefani (Kaitlyn Santa Juana), uma estudante universitária atormentada por um pesadelo violento e recorrente. Forçada a voltar para casa, ela busca a única pessoa que pode ajudá-la a romper um ciclo de morte que parece perseguir sua família.

O filme começa com uma sequência ambientada nos anos 60 — e só por essa introdução já dá para perceber que o novo “Premonição” elevou o nível técnico da franquia.

A fotografia é caprichada, o figurino e a trilha sonora mergulham o espectador na estética da época, e a direção conduz tudo com um senso de urgência crescente. À medida que os personagens percebem que algo está fora do lugar, a montagem e os enquadramentos vão construindo uma tensão palpável. É uma cena que impressiona tanto pela ambientação quanto pela forma como prepara o terreno para a tragédia.

Apesar de algumas soluções lembrarem filmes como “Titanic”, a sequência inicial prende a atenção. O acidente acontece no Sky View, um restaurante no topo de um prédio, o que por si só já adiciona uma camada extra de tensão. E o mais interessante é que o filme não se apoia apenas no impacto visual. Até mesmo a música escolhida para a cena carrega significado: a letra fala sobre alguém “caindo por causa de outra pessoa”, refletindo exatamente o que a protagonista sente ao prever a queda do restaurante, enquanto encara, sem entusiasmo, a surpresa preparada pelo namorado.

Quando o primeiro desastre finalmente ocorre, o filme segue a dinâmica habitual da franquia: uma sequência exagerada e fora da lógica realista. Mas essa sempre foi a verdadeira graça de “Premonição”: a suspensão da descrença como parte do pacto com o público, que aceita o absurdo em troca de tensão e diversão.

Depois dessa introdução, a narrativa avança para os dias atuais, e conhecemos a verdadeira protagonista. É ela quem desvenda a conexão entre os eventos do passado e a nova onda de mortes. Determinada a quebrar o ciclo, ela entra na clássica espiral da franquia: mortes provocadas por coincidências bizarras, objetos fora de lugar e o destino se moldando de forma cruel.

O roteiro até ensaia uma inovação ao sugerir uma origem para a figura da Morte e explorar o conceito de uma linhagem familiar de vítimas. Porém, essa camada extra é pouco desenvolvida e soa como um artifício superficial. A tentativa de conectar com os filmes anteriores fica restrita a algumas referências visuais em um livro ilustrado.

A participação de Tony Todd, por exemplo, poderia render algo muito mais interessante, mas é desperdiçada numa cena escrita de forma conveniente e sem impacto É frustrante para os fãs que cultivavam a teoria de que seu personagem era, na verdade, a personificação da Morte. Claro que ninguém assiste a “Premonição” esperando uma obra com roteiro refinado ou grandes reviravoltas.

Ainda assim, o marketing do filme vendeu a ideia de uma reinvenção que não se concretiza. A premissa é mais ousada do que a execução, e a trama acaba funcionando melhor quando volta ao que a franquia sempre fez de melhor: mortes criativas, exageradas e memoráveis. E nesse aspecto, o filme entrega o que promete. Duas mortes em especial se destacam pelo nível de tensão: uma envolvendo um caminhão de lixo e outra numa sala de ressonância magnética. Já a sequência final — com um trem e toras de madeira que remetem diretamente ao segundo filme — é um dos momentos mais impactantes de toda a franquia.

Aliás, vale destacar o uso da trilha sonora: músicas como Without You, de Harry Nilsson, Ring of Fire, de Johnny Cash, e até Escape (The Piña Colada Song), de Rupert Holmes, são incorporadas de maneira surpreendentemente eficaz, gerando contraste e até desconforto em meio à tensão.

“Premonição 6: Laços de Sangue” não reinventa a franquia como muitos esperavam — e talvez nem precise. A proposta de inovação até existe, mas se fragiliza no desenvolvimento, e o filme acaba funcionando melhor quando retorna ao que a saga sempre entregou de forma mais eficaz: mortes criativas, exageradas e impactantes, à altura dos momentos mais memoráveis dos capítulos anteriores.

O longa cumpre bem seu papel de entretenimento, desde que o espectador aceite a suspensão da descrença e embarque no absurdo proposital que define o DNA da franquia. Porque, no fim das contas, o terror também serve para divertir — não só para provocar reflexões ou alimentar teorias.

Confira o trailer:

Filme: Premonição 6: Laços de Sangue (Final Destination: Bloodline)
Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10) Muito bom

Direção: Zach Lipovsky, Adam B. Stein

2025 ‧ Terror/Mistério ‧ 1h 49m

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