
A diretora Mimi Cave, que nos surpreendeu com seu primeiro longa de terror, “Fresh”, retorna agora com “Holland”. O filme se vende como um thriller, mas, à medida que a trama se desenrola, mergulha cada vez mais no terror, ainda que boa parte da narrativa se sustente em um suspense intrigante.
O clima remete aos clássicos de Hitchcock, mas sem se apoiar esteticamente em um thriller convencional. Em vez de uma fotografia desaturada e sombria, Holland aposta em cores vibrantes — às vezes até excessivas —, o que, no ato final, me causou certo cansaço. No entanto, essa escolha visual não é gratuita; há uma intenção clara de representar uma família perfeita de comercial de margarina, onde tudo parece idealizado.
Na trama, uma mulher suspeita que seu marido a está traindo e, antes de descobrir a verdade, se arrisca a ter mseu próprio caso.
O grande acerto da direção está na forma como ambos os protagonistas se tornam suspeitos, evitando a previsibilidade. De um lado, acreditamos que Nicole Kidman (“Babygirl”) possa estar certa, mas, em alguns momentos, começamos a questionar sua sanidade. Já o personagem de Matthew Macfadyen (“Succession” e “Orgulho e Preconceito”), que inicialmente se apresenta como o marido perfeito, gradualmente se torna alguém que pode estar escondendo algo. Essa alternância mantém o espectador dividido até a grande virada, que acontece em uma cena envolvendo Gael García Bernal (“Má Educação”), onde tudo enfim se esclarece.
Além de toda a paranoia que se instala entre os personagens, também somos envolvidos nesse jogo de incertezas, que dá espaço a um drama psicológico sobre as frustrações de um casamento que, à primeira vista, parecia perfeito. No entanto, segundo a própria personagem de Nicole Kidman, essa perfeição não passava de uma vida cômoda e sem graça. E é justamente por essas queixas que começamos a questionar se suas suspeitas de traição não seriam apenas uma forma de justificar suas próprias escapadas com seu professor (Gael Garcia Bernal).
É curioso notar Nicole Kidman volta a interpretar uma mulher casada que lida com desejos reprimidos, também sob a perspectiva de um olhar de uma cineasta. Algo semelhante com o que vimos em “Baby Girl”, onde sua personagem também se via atraída por outro homem, explorando as complexidades do desejo e da insatisfação dentro do casamento.
O problema surge quando o filme precisa abandonar o mistério — conduzido com maestria até então — para trabalhar suas resoluções. O desfecho, que começa envolvente, vai se tornando cada vez mais cansativo.
Há um momento no último ato em que a história poderia ter se encerrado de forma satisfatória, mas a narrativa se estende artificialmente, tornando-se previsível e, pior, desajustada em relação ao tom estabelecido.
A sutileza dá lugar ao exagero: tudo cai naquele lugar-comum dos filmes hollywoodianos que parecem gritar por atenção, seja nas situações, na fotografia ainda mais saturada ou na trilha sonora. Esses artifícios baratos às vezes caem muito bem em um terror despretensioso; a questão é que “Holland” parecia ser mais interessante do que isso.
No fim, a técnica do filme acaba se tornando mais prejudicial do que benéfica à história. Ainda que alguns ângulos remetendo à maquete do protagonista sejam visualmente interessantes, esse recurso se desgasta com o tempo. “Holland” começa como um thriller promissor, mas tropeça na necessidade de impressionar demais, perdendo o equilíbrio que fazia sua narrativa funcionar tão bem no início.
O que, de certo modo, me conforta é a frase final, quando a protagonista se pergunta se tudo aquilo é real. Deus, eu espero que não seja. Assim, cada espectador pode imaginar um desfecho melhor e tomá-lo como o verdadeiro final.
Confira o trailer:
Filme: Holland
Onde assistir: Prime Video
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.0/10) Bom
Direção: Mimi Cave
2025 ‧ Thriller/Crime ‧ 1h 48m
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