“Faça Ela Voltar” mostra que o luto pode ser mais cruel que qualquer monstro

Os diretores Danny Philippou e Michael Philippou, que estrearam com o aclamado “Fale Comigo”, retornam com um segundo filme ainda mais ambicioso e, particularmente, muito superior ao anterior. Desta vez, a dupla demonstra maior domínio narrativo, mantendo a linearidade da proposta sem se perder ao longo do caminho e equilibrando com mais precisão o tom da obra.

Ao contrário de “Fale Comigo” (Talk to Me), que começou com uma proposta visual e narrativa ousada, mas aos poucos se rendeu a alguns clichês do gênero, este novo trabalho revela uma condução mais madura e coerente do início ao fim. Ainda que voltem a explorar o tema do luto, que serve como fio condutor entre os dois filmes, agora a dor gira em torno da perda de uma filha, enquanto no primeiro longa o foco era a perda da mãe.

Se você gostou de filmes como “Hereditário”, há grandes chances de se encantar com o novo longa dos irmãos Philippou. Assim como Ari Aster, eles compreendem profundamente a estranheza do comportamento humano — e o que somos capazes de fazer quando não conseguimos lidar com essa complexidade. Embora o terror muitas vezes recorra ao exagero para contar suas histórias, é inegável que vivemos em um mundo onde casos extremos, como sequestros para sacrifícios humanos, realmente acontecem. E essa proximidade com a realidade torna a experiência ainda mais perturbadora e envolvente.

Alerta de spoilers a seguir:

A introdução apresenta imagens perturbadoras que evocam o clima de filmes de terror psicológico, criando desde o início a sensação de que algo sombrio está prestes a acontecer. Logo depois, conhecemos dois irmãos, Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong), que enfrentam uma tragédia familiar ao encontrarem o pai morto no banheiro. A união entre eles começa a ser ameaçada pela possibilidade de separação. É então que Laura, interpretada por Sally Hawkins, entra em cena como a responsável temporária pela guarda de Piper, que ainda é menor de idade. A união entre os irmãos começa a ser ameaçada pela possibilidade de separação.

A partir daí, os dois passam a lidar com uma série de acontecimentos inquietantes. Logo descobrimos que a filha cega de Laura morreu afogada — uma tragédia que marca profundamente sua vida. O que eles não sabem é que Laura está determinada a trazer a filha de volta à vida por meio de um ritual sombrio, usando o corpo de Piper como recipiente.

Um dos problemas do longa, na minha visão, é a falta de aprofundamento nas explicações sobre o ritual que Laura tenta realizar para trazer a filha de volta. Ao deixar esses elementos apenas sugeridos, o filme perde força em determinados momentos. Há um trabalho visual potente, com destaque para a maquiagem e a construção do horror corporal, mas falta um contexto mais sólido que sustente a narrativa e amplifique a estética e a direção engenhosa dos irmãos Philippou.

Embora o objetivo da personagem fique claro, tudo soa um tanto superficial diante da ausência de uma mitologia que poderia ter sido desenvolvida. Mas é evidente que essa não foi a intenção dos diretores, pois, com toda a expertise demonstrada em seus dois primeiros filmes, acredito que eles teriam plena capacidade de desenvolver esse aspecto com mais profundidade.

Tem uma cena onde o filho adotivo de Laura, Oliver (Jonah Wren Phillips), aparece segurando o gato da família, que havia fugido enquanto Andy abria a porta, que é incômoda: o gato grita dentro de uma piscina vazia, ampliando o desconforto. Você fica apreensivo sem saber o que o garoto pode fazer com o bicho de estimação da família.

O clima se torna ainda mais tenso quando Laura confronta Andy sobre com quem ele está falando ao celular. Diante da recusa do garoto em responder, ela aproveita um momento de descuido para pegar o aparelho e ler suas mensagens. Quando Andy percebe, reage com raiva e a empurra. Laura, então, vê que ele estava falando mal de Oliver, seu filho.

As situações estranhas se intensificam. As bizarrices se acumulam a ponto de você não saber mais para onde a história está indo. Em uma cena particularmente perturbadora, Laura urina em um pote e despeja o conteúdo sobre Piper enquanto ela dorme — um momento que escancara que há algo profundamente doentio naquela família.

Em meio ao caos, Laura, por sua vez, começa a criar um vínculo emocional intenso com Piper e a pergunta se ela gostaria de continuar vivendo com ela depois que Andy completasse 18 anos — idade em que deixaria a casa. Fora dessa fachada de boa moça, Laura assiste a vídeos sombrios que envolvem até cenas de canibalismo.

Andy tem um acesso de fúria depois que Laura simula uma situação para colocá-lo contra a irmã, fazendo com que Piper acredite nela em vez do próprio irmão. É nesse ponto que o roteiro escorrega: o fato de Piper ser cega não justifica que ela seja facilmente manipulável. A escolha de confiar em uma estranha ao invés do irmão soa forçada, e, mesmo que o plano de Laura seja engenhoso, há aqui uma facilitação narrativa que incomoda.

Tudo o que envolve a narrativa de Oliver me tocou profundamente — ver a deterioração física do garoto e como ele chega a um extremo do horror corporal é devastador. Tudo isso causado pela incapacidade de uma pessoa de lidar com o luto sozinha.

Há uma cena impressionante em que Sally Hawkins precisa impedir que a assistente social descubra seus planos. Seu surto é conduzido com intensidade dramática e uma atuação brilhante, resultando em um dos momentos mais impactantes do filme.

Outro momento marcante é o desfecho, que ilustra com precisão a dor da perda e a recusa em aceitar o luto. O horror se apropria de um sentimento real e o transforma em imagem — com elementos gráficos característicos do gênero — não apenas para chocar, mas também para provocar reflexão.

“Faça Ela Voltar” é aquele tipo de filme que, com o tempo, vai se tornar ainda mais marcante. Ele reúne todos os elementos de um bom terror psicológico: uma narrativa envolvente sobre o luto e as insanidades que alguém é capaz de cometer ao tentar burlar a natureza de uma tragédia irreversível. Com atuações intensas, uma trilha sonora que nos mergulha na estranheza da história e momentos de puro desconforto quando o horror corporal entra em cena, o filme deixa marcas que não se apagam facilmente.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Faça Ela Voltar (Bring Her Back)
📺 Onde assistir: 21 de Agosto nos cinemas
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.5/10) Ótimo
Direção: Danny e Michael Philippou
2025 ‧ Terror/Psicológico ‧ 1h 35min

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