
“Invocação do Mal” chega ao seu quarto filme e também ao último capítulo da franquia como a conhecemos até agora. No entanto, como bem sabemos, no universo do terror sempre existe a possibilidade de retorno. É provável que isso aconteça em algum momento, sem Vera Farmiga e Patrick Wilson, mas o campo é vasto para novas histórias de assombrações. Seja por meio de uma reiniciação mostrando o casal Warren em sua juventude, seja dando continuidade com outro personagem assumindo o protagonismo, o terreno está aberto para novas interpretações. É justamente esse caminho que “Invocação do Mal 4: O Último Ritual” parece explorar.
O casal Smurl se muda para uma nova casa junto de suas cinco filhas. Logo, acontecimentos inexplicáveis começam a perturbar a família: barulhos estranhos, sustos constantes e marcas misteriosas que surgem no corpo da mãe. Cada vez mais assustada e fragilizada, ela decide procurar ajuda do renomado casal de investigadores paranormais, Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga). Ao visitar a residência, os dois logo percebem que algo extremamente poderoso e maligno habita o lugar. Agora, precisam não apenas identificar o que está por trás das manifestações, mas também descobrir por que aquela entidade escolheu justamente os Smurl como alvo.
O filme se inicia com um flashback que apresenta os Warren mais jovens, no período em que Lorraine está prestes a dar à luz à filha do casal, Judy. O parto, porém, resulta em um bebê natimorto. Desesperada, Lorraine suplica para que a criança seja trazida de volta — e, de forma milagrosa, Judy retorna à vida. Não se trata de um spoiler, evidentemente, já que em filmes anteriores da franquia acompanhamos a personagem em idade mais avançada.
Nos dias atuais, a narrativa avança para acompanhar a família Smurl. É então que a jovem Heather Smurl recebe de seu avô, John Smurl, um espelho como presente de crisma — um gesto que, dentro da tradição católica, deveria simbolizar proteção espiritual. No entanto, o objeto acaba assumindo um papel crucial no terreno sobrenatural, e não de forma benéfica para a garota. O uso do espelho como elemento de horror não é novidade no cinema: o excelente “O Espelho” (2013), de Mike Flanagan, já havia explorado as maldições que um artefato assim pode desencadear na vida de uma família. Antes disso, clássicos como “A Lenda de Candyman” (1992) também souberam transformar o espelho em um símbolo de medo e invocação do mal.
Eu não acredito que a repetição de certas temáticas esvazie um filme por si só. No entanto, em “Invocação do Mal 4: O Último Ritual”, o fato de recorrer a um recurso já tão explorado no gênero acaba tornando a experiência um pouco menos envolvente. Surge, inevitavelmente, uma sensação de déjà-vu diante de tantas outras obras que já utilizaram essa mesma narrativa — e, em muitos casos, de maneira mais eficiente.
O filme acerta ao tentar emular situações clássicas dos primeiros longas dirigidos por James Wan, especialmente em cenas que exploram aqueles instantes que antecedem o surgimento do mal. Um exemplo é a sequência em que uma mulher está sozinha e percebe o fio do telefone sendo puxado, acreditando inicialmente que sejam as crianças. O uso da porta escura e da tensão que essa cena cria remete ao estilo dos primeiros filmes, que sabiam explorar com maestria esses momentos de medo. É verdade que Michael Chaves não consegue reproduzir completamente a atmosfera sombria e o senso de perigo iminente característicos de James Wan, mas consegue replicar esses elementos de forma eficiente, ainda que sem o mesmo impacto dos primeiros filmes.
Enquanto o primeiro longa apostava muito mais no suspense e na forma como o ambiente criava uma sensação de tensão constante, “O Último Ritual” é muito mais explícito visualmente. Um exemplo é a cena em que uma criança vê sua boneca flutuando, seguida por uma senhora cadavérica sorrindo para ela. São tentativas do diretor de gerar medo pelo terror visual, mas nem sempre funcionam. James Wan entendia que, antes de mostrar o mal, era preciso construir a atmosfera; já Michael Chaves parece acreditar que exibir essas assombrações logo de cara é suficiente para causar medo — algo que, na prática, não acontece, fazendo com que muitas cenas soem como artifícios já vistos em outros filmes de terror, sem muita criatividade.
Uma cena que intensifica ainda mais essa sensação ocorre quando as garotas decidem se livrar do espelho, e uma delas começa a passar mal, vomitando pedaços de vidro, enquanto o sangue jorra na tela. É mais um daqueles momentos que remete a uma estética presente em outros filmes de terror, como o recente “A Morte do Demônio: A Ascensão”. Visualmente, a cena funciona e provoca incômodo, mas acaba se tornando mais um desses momentos pouco inspirados que lembram outros filmes, reforçando a sensação de déjà-vu.
Diferente dos momentos menos inspirados do terror, que ainda funcionam, o problema em “Invocação do Mal 4: O Último Ritual” reside nos trechos melodramáticos, que ocupam bastante tempo de tela e acabam quebrando o clima de tensão crescente. Um exemplo é quando Tony Spera precisa pedir a mão de Judy aos Warrens — uma cena que mais parece saída de uma novela mexicana. A situação se torna ainda pior quando Judy entra em cena e, de maneira piegas, aceita o pedido de casamento, feito de forma totalmente acidental.
De volta ao terror, as assombrações na casa dos Smurls se intensificam, e recortes de diversos jornais sobre o caso ganham destaque. Em um deles, chega-se a cogitar a possibilidade de fraude, mas um membro da família aparece dando depoimento de que, na casa, viviam oito pessoas — e todas relataram os mesmos acontecimentos.
O maior problema dos filmes de “Invocação do Mal” é que, embora se vendam como baseados em fatos, quase sempre ignoram a questão da possível fraude, tão discutida na vida real. Naturalmente, sendo filmes de terror, eles tomam partido de que as assombrações realmente existiram, deixando de lado esse lado mais realista e cético. Ainda assim, considerando que a franquia sempre usa o “baseado em fatos” como argumento de marketing — reforçado inclusive nos créditos finais com imagens reais —, o filme poderia ter sido mais ousado ao explorar um pouco mais essa faceta, agregando profundidade à narrativa. Com isso, o terror, que se mostrou menos efetivo nos dois últimos filmes, poderia ter se beneficiado de uma abordagem mais psicológica, explorando crença e descrença, tornando a experiência mais envolvente e provocativa. Se fosse da A24, provavelmente eles teriam explorado esse campo da dúvida.
Quando mencionei que a franquia possivelmente retornará algum dia com uma nova abordagem, isso fica evidente ao vermos o genro de Ed Warren, Tony Spera, ganhando tanto destaque neste último capítulo. Em uma cena, Ed Warren comenta com ele sobre seu trabalho, sugerindo que Tony possa seguir na mesma linha no futuro. Na vida real, Tony Spera possui experiência em pesquisa de fenômenos paranormais e atualmente é co-diretor da New England Society for Psychic Research (NESPR), além de curador do Warren’s Occult Museum, em Monroe, Connecticut. Ele também co-apresentou o programa “28 Dias Assombrados” da Netflix, uma série de investigação paranormal que acompanha três equipes em locais distintos durante um mês.
A reta final, que depende de uma sequência rápida de acontecimentos para criar a sensação de que algo muito grande está acontecendo, repleta de cenas com ação intensa no terror, evidencia a dificuldade do diretor em compreender que o medo pode ser gerado pela atmosfera, e não necessariamente por gritos, possessões ou bonecas gigantes correndo atrás de você.
É justamente no momento final que “Invocação do Mal 4: O Último Ritual” se mostra mais enfraquecido como filme, apoiando-se em maneirismos do gênero, com trilha sonora alta e recursos óbvios numa tentativa desesperada de criar tensão. Para piorar, a cena final mergulha em um melodrama romântico que busca emocionar, mas acaba soando totalmente piegas.
Em suma, o quarto e último filme da franquia não é tão ruim quanto “Halloween Ends” ou outros desfechos de séries de terror. Conta com os talentosos Patrick Wilson e Vera Farmiga, que elevam o impacto do terror com suas performances, mesmo sem alcançar os momentos mais memoráveis desse universo. Mesmo com as repetições e todo o melodrama excessivo, é bem executado e certamente deve agradar aos fãs da franquia.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Invocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites)
📺 Onde assistir: (Cinemas)
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.0/10) Mediano/Bom
Direção: Michael Chaves
2025 ‧ Terror ‧ 2h 15m