
Quando se trata de “Treta” (“Beef”), eu sigo um pouco na contramão da maioria. Embora tenha gostado da primeira temporada e reconheça seus inúmeros acertos, ela nunca me envolveu tanto quanto esta segunda temporada. Criada por Lee Sung Jin, a série nasceu como uma minissérie, mas acabou se transformando em uma antologia, mantendo a mesma estrutura narrativa baseada em conflitos interpessoais que fogem do controle, mas explorando novos personagens, contextos e temáticas a cada temporada. E, para mim, essa nova história funciona ainda melhor justamente por apostar mais no drama do que no humor. Ainda existe o tom ácido característico da série, mas ele aparece de forma mais pontual, enquanto a narrativa se aprofunda muito mais na complexidade humana e nas fragilidades de seus personagens.
Além disso, a segunda temporada conta com um elenco que, particularmente, me agrada muito mais. Temos a excelente Carey Mulligan (“Bela Vingança”), Cailee Spaeny (“Priscilla”) e Youn Yuh-jung (“Minari”), além dos ótimos Charles Melton (“Segredos de um Escândalo”), Oscar Isaac (“Duna”) e Song Kang-ho (“Parasita”). E, como se essa escalação já não fosse suficiente para despertar interesse, gosto muito da dinâmica estabelecida logo no primeiro episódio entre dois casais marcados por diferenças de classe e de geração. Enquanto Carey Mulligan e Oscar Isaac representam um casal de classe média alta, Cailee Spaeny e Charles Melton interpretam um casal mais jovem, pertencente a uma geração que enfrenta dificuldades financeiras. Quando os mais jovens testemunham uma discussão furiosa entre os mais velhos, decidem registrar tudo pelo celular. O problema é que o casal observa, pela janela, que está sendo filmado. A partir dessa premissa aparentemente simples, a temporada desenvolve uma teia de conflitos cada vez mais complexa, envolvendo esses dois universos completamente distintos.
Na trama, Josh (Oscar Isaac) é gerente de um clube de alto padrão recém-adquirido por uma bilionária sul-coreana, interpretada pela vencedora do Oscar Youn Yuh-jung. Casado com Lindsay (Carey Mulligan), ele vive uma relação desgastada, que se deteriora ainda mais diante das incertezas provocadas pela mudança de comando. Ashley (Cailee Spaeny) trabalha em uma função modesta no mesmo clube, enquanto seu noivo, Austin (Charles Melton), possui uma situação profissional ainda mais precária, atuando apenas em meio período. Austin e Ashley sonham em mudar de vida; Josh e Lindsay desejam mais do que já possuem; e a presidente Park (Youn Yuh-jung) luta para preservar o império que construiu. Esses desejos distintos movem os personagens de um ponto a outro da narrativa, mas o grande mérito do roteiro está em nunca reduzi-los apenas às suas funções dramáticas. Afinal, embora estejam inseridos em relacionamentos — que são o principal objeto de discussão da temporada — eles continuam sendo indivíduos complexos, com conflitos próprios.
O que diferencia esta segunda temporada da primeira, pelo menos para mim, é que a narrativa não se limita apenas à “treta” que surge entre os personagens. Ela está muito mais interessada em investigar a intimidade de seus problemas. Para além das questões financeiras, a série discute a importância do casamento, as consequências de relações abusivas e tóxicas, traições, ressentimentos e uma série de dilemas emocionais que qualquer pessoa interessada em dinâmicas afetivas encontrará fascinantes. Mas não é preciso ser um estudioso do tema para se envolver. O público em geral certamente reconhecerá aspectos de sua própria realidade nessas situações desconfortáveis, que provocam reflexões sinceras sobre amor, dependência emocional, egoísmo e companheirismo.
Há também um certo espírito de “The White Lotus” nesta temporada. Parte da narrativa se concentra dentro de um clube exclusivo e na maneira como os personagens utilizam aparências e máscaras sociais para se apresentarem ao mundo. Aos poucos, porém, essas máscaras começam a cair. Isso fica evidente especialmente no casal mais jovem, interpretado por Charles Melton e Cailee Spaeny, que inicialmente observa o casal mais velho com desdém e acredita estar diante de um relacionamento perfeito apenas porque eles não brigam em público. No entanto, conforme a trama avança, percebe-se que talvez eles estejam ainda mais fragilizados emocionalmente do que o casal vivi do por Carey Mulligan e Oscar Isaac. Um dos aspectos mais interessantes da temporada é justamente essa imprevisibilidade. Se, em um primeiro momento, confiamos em determinados personagens, logo somos surpreendidos por novas camadas que revelam contradições e ambiguidades. O roteiro jamais trabalha com figuras unidimensionais. Todos possuem qualidades e defeitos, ainda que alguns pareçam ter muito mais dos segundos do que dos primeiros.
Existe até uma metáfora envolvendo formigas no episódio final, utilizadas como símbolo de persistência, cooperação e sobrevivência coletiva. A mensagem é clara: aqueles personagens podem não se amar plenamente, podem até se odiar em determinados momentos, mas continuam precisando uns dos outros para seguir em frente. Um dos momentos mais interessantes acontece quando Austin diz a Ashley que ela não o ama de verdade, mas apenas deseja ser o centro da atenção de alguém. Mais interessante ainda é a decisão que ele toma posteriormente ao perceber que uma pessoa por quem estava apaixonado talvez não sentisse o mesmo por ele. É uma situação que expõe a hipocrisia de muitos discursos sobre relacionamentos, porque frequentemente acreditamos compreender melhor os sentimentos dos outros do que os nossos próprios.
Assim como aconteceu na primeira temporada, também tenho algumas ressalvas em relação ao episódio final. Especialmente no conflito envolvendo os personagens coreanos, há uma aceleração repentina do ritmo para criar uma sequência mais caótica e repleta de ação. Algo semelhante aconteceu na conclusão da primeira temporada, quando a narrativa apostou em um assalto que culminava em situações igualmente extremas. O que mais me interessa em “Treta” é o caos interno de seus personagens, a maneira como suas inseguranças, ressentimentos e frustrações corroem seus relacionamentos. Para mim, esse conflito psicológico é muito mais poderoso e perturbador do que qualquer perseguição ou explosão de violência.
No fim das contas, esta segunda temporada de “Treta” me conquistou justamente por ampliar aquilo que considero mais interessante na proposta da série: o estudo das relações humanas. Com atuações excelentes, personagens repletos de nuances e um roteiro que se recusa a oferecer respostas fáceis, a temporada transforma conflitos aparentemente banais em reflexões profundas sobre amor, ambição, frustração e pertencimento. Mesmo quando escorrega ao buscar uma catarse mais explosiva, ela nunca perde de vista aquilo que realmente importa: pessoas tentando desesperadamente encontrar sentido, validação e afeto em relações que muitas vezes parecem condenadas ao fracasso. E é justamente nessa humanidade imperfeita que a série encontra sua maior força.
Confira o trailer:
🍿 Série: Treta – 2ª temporada (Beef – season 2)
📺 Onde assistir: Netflix
Nota geral: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ 7.5/10 – Muito boa
Criada por: Lee Sung-Jin
2026 ‧ Drama ‧ 8 episódios