Em “Dia D”, Spielberg retorna aos E.T.s, mas incapaz de enxergá-los com novos olhares

“Dia D” traz Steven Spielberg de volta a uma temática que ele sempre dominou como poucos, influenciando gerações inteiras de cineastas. O diretor já nos presenteou com obras marcantes como “E.T. – O Extraterrestre”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e “Guerra dos Mundos”, e agora retorna ao universo da ficção científica com “Dia D”. Pela campanha de marketing, o filme prometia ser o grande retorno do cineasta após os ótimos — embora comercialmente fracassos de bilheteria — “Os Fabelmans” e “Amor, Sublime Amor”. Só que, para a minha frustração, “Dia D” é um filme que alterna entre alguns acertos e uma quantidade considerável de problemas. Trata-se de uma produção de 2026 com cheiro, som e aparência de um filme feito há 30 ou 40 anos. Isso não seria necessariamente um defeito se estivéssemos diante de uma obra conscientemente construída com essa proposta, como aconteceu em “O Artista” ou até mesmo em “O Farol”. No entanto, não me parece que Spielberg tenha essa intenção aqui. O diretor parece muito mais preso à sua própria fórmula do que realmente interessado em revisitar ou reinterpretar os clássicos filmes sobre extraterrestres.

Em alguns casos, essa abordagem pode funcionar como um presente para os fãs do Spielberg mais clássico. Ainda assim, vejo mais problemas do que benefícios nessa escolha. Homenagear o cinema do passado não é o mesmo que abordar um tema sem qualquer esforço criativo para atualizá-lo aos dias de hoje. E isso se torna ainda mais evidente quando falamos de invasão alienígena, um tema que jamais envelhece e que merecia uma perspectiva mais contemporânea, como vimos em filmes como “A Chegada” e “Não! Não Olhe!”.

Curiosamente, existem produções menos ambiciosas que conseguiram equilibrar sua temática e renovação narrativa de maneira mais interessante. É o caso de “Ninguém Vai Te Salvar”, um filme praticamente sem diálogos que explora o medo e o isolamento de sua protagonista em meio ao caos de uma invasão alienígena. A obra carrega diversas influências do cinema clássico, mas sem soar datada. O mesmo pode ser dito de “A Vastidão da Noite”, que, embora não tenha me conquistado como a maioria, demonstra uma compreensão muito clara de suas referências, evitando se apoiar excessivamente nos clichês do gênero graças à inventividade de sua narrativa e da forma como sua história é contada.

E já que estou falando sobre a dificuldade de Spielberg em atualizar sua abordagem, vale lembrar que outros cineastas veteranos conseguiram se reinventar com muito mais sucesso. Clint Eastwood, por exemplo, abandonou a visão tradicionalmente masculina e machista dos antigos faroestes para construir personagens e histórias mais sensíveis e contemporâneas em filmes como “Gran Torino”, “A Mula” e “Cry Macho”. E isso já em seus 80 e 90 anos de idade. Portanto, antes que alguém interprete minha crítica como uma questão geracional ou etarista, é importante lembrar que diretores ainda mais velhos do que Spielberg compreenderam que o mundo mudou e adaptaram suas abordagens para dialogar com novas audiências. E tudo isso fica ainda mais evidente quando analisamos os problemas específicos encontrados em “Dia D”.

No longa, tudo começa quando Daniel Kellner (Josh O’Connor), um ex-funcionário da empresa WARDEX, decide revelar ao público informações confidenciais que estavam sendo mantidas em segredo. A partir daí, fenômenos estranhos passam a surgir em diferentes partes do planeta, tornando-se cada vez mais frequentes e impossíveis de ignorar. A divulgação desses documentos desencadeia uma crise global sem precedentes, expondo segredos militares e colocando em xeque tudo o que a humanidade acreditava saber sobre sua própria existência. À medida que a presença de uma inteligência alienígena se torna cada vez mais evidente, cientistas, autoridades, estudiosos e cidadãos comuns precisam aprender a lidar com a ideia de que a humanidade talvez nunca tenha estado sozinha.

No meio disso tudo, existem personagens que funcionam e outros nem tanto. E o grande acerto do filme, ao meu ver, está concentrado em Margaret, interpretada por Emily Blunt. Após a visita de um pássaro à sua casa, ela passa a falar outros idiomas e a agir de maneira cada vez mais estranha, levando seu namorado a questionar não apenas o comportamento da parceira, mas também a própria sanidade. Eu adoro como a atriz consegue transmitir essa energia caótica durante boa parte do longa, nos colocando diante daquela sensação angustiante de que algo inevitável e fora de controle está prestes a acontecer.

Só que, em meio a tudo isso, existe um personagem tão engessado, caricato e recheado de clichês típicos das produções da Disney ou de alguns filmes de super-heróis da Marvel que acaba enfraquecendo justamente essa outra parte interessante da narrativa. Estou falando de Noah Scanlon, interpretado por Colin Firth. Que me perdoem os fãs do ator, mas cada vez mais me convenço de que ele foi um daqueles nomes que Hollywood tentou transformar em unanimidade a qualquer custo. Seus trabalhos mais recentes apenas reforçam a impressão de que ele interpreta sempre a mesma versão de si mesmo, sem demonstrar muito interesse em oferecer algo além do que já vimos anteriormente.

E não estou dizendo que um ator precise abandonar completamente suas características — isso seria impossível —, mas, para mim, Colin Firth se tornou aquilo que Giancarlo Esposito se tornou após o auge em “Breaking Bad”: uma repetição constante de um personagem que já funcionou no passado. Para piorar, Noah é um personagem mal escrito, com motivações previsíveis e sustentadas por um artefato que funciona mais como uma conveniência de roteiro do que como um elemento realmente orgânico da história. Esse recurso reduz ainda mais as consequências de suas escolhas e transforma conflitos potencialmente interessantes em meras facilitações narrativas, enfraquecendo qualquer senso de perigo e tornando o filme mais infantil do que deveria ser.

Agora, indo para o campo da narrativa, o roteiro de David Koepp — responsável por alguns dos trabalhos mais marcantes de Hollywood, como os primeiros “Jurassic Park” e “Missão: Impossível”, além do ótimo terror “Ecos do Além” e, mais recentemente o thriller, “Código Preto” — também carrega no currículo obras menos inspiradas, como o terror “Você Deveria Ter Partido”. Neste projeto, ele entrega um roteiro que parece excessivamente preso aos antigos filmes de Spielberg sobre vida extraterrestre. Embora exista uma clara tentativa de conectar a temática alienígena a questões religiosas e de fé, nada é explorado ou aprofundado de maneira satisfatória. Grande parte da narrativa acaba sendo consumida pelo espírito aventureiro de Steven Spielberg, que, ao meu ver, continua sendo o terreno onde o diretor encontra sua maior força. Afinal, poucos cineastas dominam a ação e a condução de grandes sequências de aventura como ele. O problema é que essas cenas acabam engolindo a própria história, que trazem muitos conceitos, temas e possibilidades reunidos em um mesmo filme, mas sem a conexão e o desenvolvimento necessários para que tudo funcione em harmonia.

Como consequência, a ação de “Dia D” se sobrepõe a todo o restante. E sem uma verdadeira sintonia entre narrativa e imagem, o filme muitas vezes deixa de nos envolver como deveria. Ainda que funcione como um blockbuster escapista e tecnicamente competente, ele raramente nos provoca reflexões mais profundas ou nos faz acreditar plenamente naquilo que está sendo apresentado na tela. Quando um filme consegue expandir nossa imaginação e alimentar esse fascínio pelo desconhecido, há ali um verdadeiro triunfo narrativo. Infelizmente, saí de “Dia D” com a sensação oposta. Em vez de despertar ainda mais minha curiosidade sobre a vida extraterrestre, o filme acabou reduzindo esse fascínio — ao menos por enquanto, é claro.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Dia D (Disclousure Day)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.0/10) Bom
Direção: Steven Spielberg
2026 ‧ Ficção científica ‧ 2h 25m

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