“Cara de Barro” prova que Gotham tem histórias extraordinárias para contar além do Batman e do Coringa

Eu adoro o universo de Gotham. É impressionante como esse universo continua rendendo histórias tão interessantes, seja nos filmes do Batman ou em produções centradas em outros personagens, como “Coringa”, com Joaquin Phoenix, e a excelente série “Pinguim”, estrelada por Colin Farrell. Agora, temos mais uma produção muito bem-sucedida desse universo: “Cara de Barro”, dirigido por James Watkins, um cineasta de quem gosto bastante. Para quem não conhece seu trabalho, ele dirigiu “Sem Saída” (Eden Lake), terror brutal com Michael Fassbender e um desfecho dilacerante; “A Mulher de Preto”, com Daniel Radcliffe; e o remake de “Não Fale o Mal”, que considero uma boa releitura, embora mais suavizada e hollywoodiana que o original dinamarquês. Watkins também dirigiu um dos episódios mais perturbadores de “Black Mirror”, “Shut Up and Dance”. E, para completar, temos Mike Flanagan assinando a história e dividindo o roteiro com Hossein Amini. Ou seja, profissionais extremamente competentes à frente de um projeto que chega com a difícil missão de recuperar minha confiança na DC depois do desastroso “Supergirl”, filme do qual não gostei nem um pouco.

A história acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que vê sua carreira desmoronar depois de ter o rosto brutalmente desfigurado por um criminoso. Desesperado para recuperar sua aparência, ele se submete a um tratamento experimental que acaba transformando seu corpo em uma substância semelhante à argila, permitindo que assuma diferentes formas e identidades. Nos quadrinhos, o Cara de Barro é um dos vilões mais fascinantes do Batman, especialmente por sua capacidade de metamorfose, que o torna uma ameaça imprevisível. O personagem possui diferentes versões desde sua estreia em 1940, incluindo Basil Karlo e Matt Hagen, sendo este último a principal inspiração para o longa.

E uma das coisas que mais me agradaram no projeto foi justamente dar protagonismo a um vilão que sempre considerei subaproveitado nas adaptações cinematográficas do Batman. Hollywood insiste em retornar ao Coringa, como se Gotham não tivesse uma galeria extraordinária de personagens esperando por boas histórias. Depois de duas interpretações tão icônicas quanto as de Heath Ledger e Joaquin Phoenix, já passou da hora de olhar para outros antagonistas. E o Cara de Barro tem um potencial enorme, tanto pelo aspecto trágico de sua origem quanto pelas possibilidades visuais e psicológicas que seus poderes oferecem. Por isso, é tão gratificante vê-lo ganhar uma produção própria nos cinemas.

Mas confesso que minha experiência com o filme começou de maneira pouco empolgante. Durante boa parte da primeira hora, especialmente nos 30 minutos iniciais, tive a sensação de estar assistindo a uma produção feita para a televisão. E não que isso seja necessariamente um defeito, já que existem excelentes filmes televisivos, mas faltava aquela dimensão cinematográfica que costumo encontrar nas produções ambientadas em Gotham. As limitações de orçamento ficam evidentes na composição das imagens, na montagem e até na maneira como determinadas sequências são construídas. Existem cineastas que conseguem transformar poucos recursos em uma grande experiência visual, mas não senti isso inicialmente no trabalho de Watkins. O filme parecia barato, visualmente pouco inspirado e, sobretudo, tímido diante das possibilidades do próprio personagem.

Mas confesso que minha experiência com o filme começou de maneira pouco empolgante. Durante boa parte da primeira hora, especialmente nos 30 minutos iniciais, tive a sensação de estar assistindo a uma produção feita para a televisão. E não que isso seja necessariamente um defeito, já que existem excelentes filmes televisivos, mas faltava aquela dimensão cinematográfica que costumo encontrar nas produções ambientadas em Gotham. As limitações de orçamento ficam evidentes na composição das imagens, na montagem e até na maneira como determinadas sequências são construídas. Existem cineastas que conseguem transformar poucos recursos em uma grande experiência visual, mas não senti isso inicialmente no trabalho de Watkins. O filme parecia barato, visualmente pouco inspirado e, sobretudo, tímido diante das possibilidades do próprio personagem.

A sequência da boate, em que o Cara de Barro assume diferentes aparências, é extraordinária e representa um dos pontos altos do longa. E o que vem depois é ainda melhor, porque o filme perde o receio de assumir a fisicalidade grotesca e quase cartunesca do personagem. A sequência da banheira, por exemplo, é ótima, embora pudesse durar mais. O trabalho de maquiagem e os efeitos visuais também merecem destaque pela maneira como tornam essas transformações tão repulsivas quanto fascinantes, explorando a deformação do corpo e a textura do barro para criar imagens realmente perturbadoras. Até então, eu estava incomodado com a sensação de assistir a um filme do Cara de Barro que parecia ter vergonha de mostrar o próprio Cara de Barro. Cheguei a pensar que até “A Substância” tinha mais cara de barro do que o próprio filme! Felizmente, a produção ganha coragem para abraçar essa proposta, explorando melhor as transformações corporais, as perseguições e os confrontos físicos. É nessa segunda metade que Watkins encontra sua melhor forma, e o filme ganha a força que eu esperava desde o começo.

Essa evolução também se reflete nos aspectos técnicos. A trilha sonora capta muito bem a essência sombria de Gotham, enquanto a fotografia e os enquadramentos encontrados por Watkins na reta final dão ao filme uma identidade visual muito mais interessante. Mas o que também me agradou foi a maneira como o roteiro consegue traduzir, de forma direta, os demônios internos de Matt Hagen em algo monstruoso e concreto.

Nesse sentido, Tom Rhys Harries entrega uma atuação convincente, especialmente ao transmitir o desespero de alguém que vê sua identidade e sua humanidade se desintegrarem. O personagem não se transforma apenas fisicamente, pois suas frustrações, inseguranças e obsessões também contribuem para aquilo que ele acaba se tornando. E o filme acerta quando deixa de explorar somente a troca de aparências e passa a investigar essa dimensão mais psicológica, inclusive através da relação que Matt desenvolve com a médica que tenta salvá-lo, interpretada por Naomi Ackie. São camadas que acrescentam profundidade ao personagem e fazem com que o horror corporal não seja apenas um recurso visual, mas também uma extensão dos seus conflitos internos.

No fim das contas, “Cara de Barro” está longe de ser um filme perfeito, especialmente por uma primeira parte que demora a encontrar sua identidade e não aproveita tão bem as possibilidades cinematográficas de Gotham. Mas é gratificante perceber como James Watkins supera boa parte dessas limitações e entrega uma experiência que mistura thriller policial, tragédia psicológica e horror corporal de maneira cada vez mais interessante. É um filme que cresce conforme avança e que, quando assume a monstruosidade de seu protagonista, encontra seus melhores momentos. O resultado também reforça algo que defendo há muito tempo: o universo do Batman tem inúmeras histórias para contar sem precisar recorrer sempre aos mesmos personagens. E, sinceramente, espero que a DC continue apostando nesse caminho.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Cara de Barro (Clayface)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ (8.0/10) – Ótimo
Criada por: James Watkins
2026 ‧ Terror/Ação ‧ 1h 48m

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