
“Verity” é aquele tipo de filme que, quando termina, me deixa com uma sensação extremamente ruim, de vazio no peito, muito por conta de ver um filme tão mal conduzido, seja pela direção, que não consegue extrair nada de interessante dessa história adaptada de um livro de Colleen Hoover, que tem suas fãs, e eu não as desmereço, mas, particularmente, acho que, para funcionar no cinema, precisa agradar além de sua fanbase de leitoras e criar algo que seja, no mínimo, consistente. E esse longa falha miseravelmente na consistência, na coerência e até mesmo no poder de sedução, porque, além de escolher atores que ficam desinteressantes em cena, como Dakota Johnson e Josh Hartnett, também faz outras escolhas que eu duvido muito que sejam interessantes para a maioria das pessoas que forem assistir ao filme. Existe uma falta de personalidade tão grande na adaptação que, mesmo quando ela tenta provocar, incomodar ou criar tensão, tudo parece artificial demais para causar qualquer efeito.
No começo, o suspense até me enganou um pouco ao me fazer acreditar que eu me envolveria cada vez mais com aquela história, que, a princípio, envolvia um mistério que parecia ter muito pano pra manga, apesar de carregar clichês de outros filmes. Só que o problema é que, conforme o filme vai avançando, a narrativa fica mais devagar que uma tartaruga. A diferença é que a tartaruga ao menos é fofa e bonita de olhar, e nem a fotografia desse filme consegue ser atraente, assim como seus atores apáticos, que nunca expressam direito suas emoções, com exceção da personagem de Anne Hathaway, que, mesmo tetraplégica, consegue ser mais expressiva do que Dakota Johnson e Josh Hartnett juntos. O filme deveria provocar uma sensação constante de desconforto, de dúvida e de perigo, mas quase sempre parece apenas distante e sem vida.
Na trama, contratada para ser a escritora fantasma da renomada autora Verity Crawford (Anne Hathaway), a tarefa de Lowen Ashleigh (Dakota Johnson) toma um rumo sombrio quando ela descobre notas autobiográficas arrepiantes. Diante de uma série de segredos de família mortais, Lowen luta para separar a ficção da realidade enquanto também confunde os limites de sua relação com o marido de Verity, interpretado por Josh Hartnett.
Eu nunca espero que nenhum filme atenda às minhas expectativas de uma lógica humana, afinal, o ser humano pode ser irracional e cometer muitos atos questionáveis, especialmente quando envolve suspeita, paranoia e traição. Só que o maior problema de “Verity” não dá pra ter uma passada de pano pensando apenas nos atos dos personagens diante daquela situação, porque as resoluções de roteiro chegam a um nível tão absurdo na reta final que, mesmo quando o filme começa a flertar com sua dualidade para nos deixar com a pulga atrás da orelha, você percebe que nenhuma daquelas situações hipotéticas faria sentido dentro de nenhuma das alternativas que o filme propõe ao espectador. O problema não é simplesmente um personagem tomar uma decisão ruim ou agir de maneira impulsiva. É a própria construção da história exigir que a gente aceite situações cada vez mais improváveis para que suas reviravoltas continuem funcionando.
E o que dizer do ritmo? Moroso é apelido pra explicar tamanha ineficiência em conduzir a narrativa. Além disso, a fotografia escura é usada somente para tentar passar alguma seriedade que o roteiro não consegue, o que torna a experiência carregada em diversos níveis, desde o visual até o narrativo.
E talvez eu tenha terminado tão exausto exatamente por essas péssimas escolhas visuais e decisões criativas que fazem desse suspense psicológico uma experiência tão exaustiva. Porque, além de não ser bonito, é um filme que se esvazia cada vez mais e, quanto mais tenta inflar sua história com explicações para parecer que existem grandes reviravoltas, mais inchado e penoso ele se torna de assistir. É como se o filme confundisse complexidade com acúmulo de informações e acreditasse que explicar mais significa necessariamente surpreender mais.
Todo esse sentimento fica ainda mais frustrante quando parece que o thriller finalmente vai esquentar, mas ele não sabe se quer ser um romance, um drama ou mesmo um suspense. E eu nunca entendo quando Hollywood tem um livro de sucesso nas mãos e chama um diretor inexperiente nesse gênero para comandar uma adaptação como essa, porque, além de inexperiente, Michael Showalter nem tem tantos filmes bons em sua filmografia, exceto pelo queridinho da crítica e do público, a comédia “Doentes de Amor”. Mas talvez ele devesse ter ficado com a comédia mesmo e não investido em um suspense que parece mais uma comédia, só que de extremo mau gosto. Um diretor de comédias que às vezes domina bem esse gênero é Paul Feig, que, quer você goste ou não, ao menos tornou a adaptação de “A Empregada” divertida de assistir. Aqui, nem esse senso de entretenimento existe: falta tensão para ser um bom thriller, falta emoção para funcionar como drama e falta química para convencer como romance.
No fim, “Verity” é um filme que tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo e não consegue ser realmente bom em nenhuma delas. Existe uma história que poderia render um suspense psicológico provocativo, cheio de paranoia, desejo, manipulação e personagens moralmente questionáveis, mas tudo isso é sufocado por uma direção sem personalidade, um ritmo extremamente moroso, atuações apáticas, escolhas visuais pouco atraentes e um roteiro que acredita que acumular explicações e possibilidades é o mesmo que construir boas reviravoltas. Quando termina, não fica a sensação de dúvida que um filme como esse deveria provocar, mas apenas o vazio de ter acompanhado uma história que prometia muito mais do que conseguiu entregar.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Verity
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ – (4.0/10) Ruim
Direção: Michael Showalter
2026 ‧ Suspense psicológico ‧ 1h 54m