“Extermínio: A Evolução” desafia expectativas e divide opiniões

Em 2002, o diretor Danny Boyle revitalizou o gênero de terror sobre infectados com o impactante “Extermínio” (28 Days Later), um marco que influenciou diversas produções posteriores ao trazer uma abordagem mais crua, política e desesperançada para o subgênero. O sucesso foi tanto que, cinco anos depois, uma sequência foi lançada — desta vez sob a direção de Juan Carlos Fresnadillo — resultando em um filme mais convencional e menos inventivo. Agora, quase duas décadas depois, Boyle retorna à franquia com “Extermínio: A Evolução” (28 Years Later), ignorando os acontecimentos finais do segundo longa e retomando o universo sombrio que ele ajudou a consolidar. A trama se passa 28 anos após os eventos originais, mergulhando em um mundo ainda devastado pelo vírus da raiva e suas consequências.

Ainda sob os efeitos do colapso social provocado pela epidemia, a humanidade vive isolada, controlada e monitorada. Jamie, um sobrevivente com uma postura ambígua, decide cruzar territórios perigosos ao lado do filho, Spike. É nesse percurso que descobrem uma nova mutação do vírus — agora mais silenciosa, sorrateira, e que não transforma apenas os infectados, mas também altera a forma como os humanos convivem com o trauma, a culpa e a violência.

É fundamental destacar que quem busca um filme de ação frenética com zumbis — ou infectados, para sermos mais precisos — pode se frustrar.

O roteirista Alex Garland e Danny Boyle optam por uma abordagem mais reflexiva e moralmente ambígua, interessando-se menos pela carnificina e mais pelos dilemas éticos dos sobreviventes. O filme alterna entre momentos brilhantes de tensão e decisões narrativas discutíveis, mas ainda assim entrega uma experiência provocadora e instigante.

Por exemplo, a introdução deste terceiro filme é apressada e falha em causar impacto. Até mesmo cortes bruscos, como em uma cena envolvendo Jodie Comer discutindo com o marido vivido por Aaron Taylor-Johnson, comprometem a imersão e diluem o peso dramático que a obra tenta construir.

Um dos tropeços mais evidentes está na introdução apressada, que falha em estabelecer impacto e atmosfera com a força esperada. Cortes abruptos — como em uma cena tensa de discussão entre Jodie Comer e Aaron Taylor-Johnson — quebram o ritmo e diminuem o peso emocional que deveria se intensificar naquele momento. Ainda assim, o filme encontra fôlego ao explorar a relação disfuncional entre os personagens, especialmente por meio de Spike, o filho do casal.

É através do olhar desse adolescente que o filme encontra sua carga emocional mais honesta. Forçado a se tornar uma máquina de caça sob a tutela do pai, o garoto manifesta repulsa diante da violência que testemunha. A sequência em que os primeiros alvos — infectados obesos — são executados, choca não apenas pela brutalidade, mas pela crítica silenciosa à desumanização do “inimigo”. O trabalho de maquiagem impressiona e reforça a atmosfera doentia que o longa sustenta em sua melhor forma.

Visualmente, o filme também se destaca. A fotografia digital, feita com iPhone 15 Pro Max, surpreende pela qualidade, e a escolha de utilizar drones proporciona uma escala visual poderosa em cenas de perseguição e conflito.

Em um dos momentos mais intensos, pai e filho enfrentam uma horda de infectados, e a tensão crescente é reforçada por enquadramentos inteligentes e som diegético bem explorado — ruídos de respiração, gritos abafados, silêncios súbitos.

Após essa missão, Jamie elogia o filho em público, tentando criar uma imagem de força e bravura. No entanto, Spike reage com profunda angústia. A sequência em que ele vomita no banheiro é um dos momentos mais humanos do filme — um gesto de fragilidade que contrapõe a masculinidade tóxica imposta pelo pai. É nesse contraste entre performance e verdade emocional que o filme revela sua força.

Quando Jamie trai Isla e agride Spike, o roteiro promove uma virada que descentraliza o protagonismo de Aaron Taylor-Johnson. Isla, vivida com intensidade por Jodie Comer, assume o centro da narrativa ao lado do filho.

A entrada de um soldado sueco carismático e inesperadamente bem-humorado, suaviza a tensão em alguns momentos, sem comprometer o tom geral. Essa mudança de dinâmica é bem-vinda e impede que o filme se torne repetitivo ou centrado apenas no embate pai e filho.

A revelação da doença de Isla adiciona uma camada de urgência e emoção. A tentativa de Spike de buscar ajuda médica nos conduz ao personagem do Dr. Ian, interpretado por Ralph Fiennes com a gravidade e o mistério que o papel exige.

Os diálogos entre eles têm uma carga filosófica que remete aos debates éticos presentes em outras obras escritas por Garland. Porém, a resolução desse arco é problemática: a pressa em concluir a jornada emocional de Spike compromete a coerência de suas ações e transforma sua transformação psicológica em algo abrupto demais, quase artificial.

Infelizmente, a sequência final destoa completamente da proposta construída até então. Ao optar por um tom cômico escrachado — quase paródico — o filme sabota seu próprio drama. Apesar de comprometer parte do impacto emocional, a sequência final não é suficiente para anular a força dos dois primeiros atos, que são conduzidos com grande competência.

A direção de Danny Boyle permanece inventiva e pulsante, trazendo energia visual e sensorial à narrativa, enquanto o roteiro de Alex Garland acerta ao construir tensões morais e dilemas humanos com complexidade. Mesmo com um encerramento destoante em tom, “Extermínio: A Evolução” se mantém como uma adição digna à franquia — provocativa, atmosférica e, por boa parte do tempo, surpreendentemente sensível.

Confira o trailer:

Filme: Extermínio: A Evolução (28 Years Later)
Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Danny Boyle
2025 ‧ Terror/Drama ‧ 1h 55m

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