Entre “A Substância” e “Nip/Tuck”, “The Beauty” encontra sua própria identidade

“The Beauty”, nova série de Ryan Murphy, chegou cercada de comparações com “A Substância”, recente filme de horror corporal dirigido por Coralie Fargeat. A semelhança entre as premissas é evidente, mas preciso ressaltar que a série é baseada na HQ homônima publicada em 2018, muito antes do filme chegar aos cinemas.

O showrunner Ryan Murphy certamente não ignorou o momento favorável do subgênero e parece ter percebido que havia terreno fértil para adaptar esse material agora. Ainda assim, não se trata de plágio, mas de mais uma variação sobre um tema recorrente no cinema e na cultura pop: a obsessão pela juventude e pela beleza. Basta lembrar que esse tipo de história já rendia sátiras memoráveis nos anos 1990, como em “A Morte Lhe Cai Bem”, filme que inclusive ganha uma piscadela espirituosa no último episódio da série com a presença de Isabella Rossellini no elenco.

Na trama, tomados por uma sensação inquietante de déjà vu, os agentes do FBI Cooper Madsen (Evan Peters) e Jordan Bennett (Rebecca Hall) passam a investigar um fenômeno que coloca a beleza no centro de uma trama perigosa. O que inicialmente parece apenas mais um caso revela uma realidade perturbadora, na qual a aparência física se tornou um bem valioso e potencialmente letal. Conforme a investigação avança, vítimas e suspeitos se entrelaçam em um sistema dominado pela obsessão estética. A origem dessa ameaça está em um composto injetável chamado The Beauty, criado por uma poderosa corporação associada a um personagem vivido por Ashton Kutcher e que se espalha como uma infecção com efeitos fatais.

Criada por Ryan Murphy em parceria com Matthew Hodgson, colaborador do showrunner em séries como “Glee” e “9-1-1”, a produção deixa claro desde o início que não pretende operar dentro de um registro naturalista. O primeiro episódio assume um tom deliberadamente cartunesco, evidenciado já na sequência de abertura, em que Bella Hadid surge acelerando uma motocicleta pelas ruas de Paris. Quem esperar uma abordagem mais sóbria ou realista talvez estranhe esse exagero estilizado. No entanto, considerando a origem da história nos quadrinhos, essa escolha estética casa perfeitamente com o espírito do material original.

Os episódios iniciais, centrados nos personagens de Evan Peters e Rebecca Hall, formam o núcleo mais sólido da temporada. Ambos possuem presença cênica marcante e sustentam com naturalidade a dinâmica entre seus personagens, cuja relação atravessa a investigação com um subtexto emocional interessante. Por isso mesmo, causa frustração perceber como a personagem de Rebecca Hall é descartada prematuramente. A série passa então a dedicar mais espaço ao antagonista vivido por Ashton Kutcher, cuja composição oscila entre o caricatural e o simplesmente insosso. O problema não é apenas o desenho do personagem, mas também uma atuação que nunca encontra o tom adequado, reforçando a impressão de que o ator permanece mais convincente quando trabalha em comédias.

Essa mudança de foco também enfraquece um dos elementos mais interessantes da série: a exploração das transformações físicas provocadas pelo injetável. Nos primeiros episódios, essas metamorfoses rendem sequências perturbadoras e visualmente impactantes, alinhadas à tradição do horror corporal. Trata-se de um subgênero que naturalmente divide o público, mas que sempre despertou fascínio pela forma como materializa angústias humanas através do corpo em mutação. Nesse sentido, “The Beauty” dialoga com obras como “A Mosca”, de David Cronenberg, “Suspiria”, na releitura de Luca Guadagnino, e o clássico “O Enigma do Outro Mundo”, dirigido por John Carpenter.

A obsessão pela beleza, aliás, sempre foi um tema recorrente na filmografia televisiva de Ryan Murphy. Ele explorou esse território com enorme eficiência em “Nip/Tuck”, criada ao lado de Brad Falchuk. A ausência dessa parceria criativa talvez explique por que “The Beauty” nunca alcança o mesmo grau de irreverência ou ousadia da série conhecida no Brasil como “Estética”. Ainda assim, a produção encontra um momento particularmente interessante no penúltimo episódio da temporada, que desloca o foco dos protagonistas para examinar as consequências dessa obsessão estética entre os jovens. O episódio funciona quase como uma parábola contemporânea sobre decisões impulsivas, contratos não lidos e soluções milagrosas adquiridas de forma ilegal — escolhas que acabam desencadeando consequências grotescas e irreversíveis.

Um dos aspectos mais decepcionantes da série é a trilha composta por Mac Quayle, colaborador frequente de Ryan Murphy em “American Horror Story”. Em vários momentos, a música recicla de forma pouco disfarçada temas utilizados na quarta temporada da série antológica que ganhou subtítulo de “Freak Show”. Para quem presta atenção na construção sonora dessas produções, a repetição é evidente e cria uma sensação curiosa de déjà vu audiovisual. Eu, que sou um grande observador dessas trilhas instrumentais, imediatamente me sentia assistindo à outra série, e até cenas dela me vinham à cabeça. Provavelmente isso foi um descuido, partindo da suposição de que o mesmo público não notaria a semelhança entre as duas. Talvez muitos realmente não percebam, mas um pouco mais de criatividade certamente não teria feito mal algum.

Curiosamente, o mesmo não pode ser dito da seleção de músicas populares que pontuam alguns momentos da temporada. Canções como ‘Lady’, da banda Mojo, ‘Quando, Quando, Quando’, na voz de Engelbert Humperdinck, ‘Easy Lover’, de Philip Bailey, ‘Sailing’, de Christopher Cross, e ‘Sweet Child O’ Mine’, do Guns N’ Roses, funcionam como uma assinatura típica das produções de Ryan Murphy. Essa curadoria musical sempre foi um dos pontos fortes de seu trabalho, e quem aprecia esse tipo de escolha encontrará em “Nip/Tuck” um verdadeiro tesouro nesse sentido.

No fim das contas, “The Beauty” é uma série irregular, mas suficientemente curiosa para manter o interesse. Seus melhores momentos surgem quando a narrativa se dedica a explorar as consequências físicas e psicológicas da busca obsessiva pela perfeição estética, ilustradas por efeitos de maquiagem convincentes e sequências de horror corporal que realmente impressionam. Em contrapartida, a presença pouco inspirada de Ashton Kutcher e algumas decisões narrativas enfraquecem o conjunto. Ainda assim, trata-se de um entretenimento competente dentro do universo estilizado de Ryan Murphy, encerrando a temporada com um gancho que claramente aponta para uma continuação. Resta torcer para que uma eventual segunda temporada saiba explorar melhor as ideias promissoras que esta primeira temporada.

Confira o trailer:

🍿 Filme: The Beauty: Lindos de Morrer (The Beauty)
📺 Onde assistir: Disney Plus
Nota: ✱ ✱ ✱ — (7.0/10) Muito boa
Direção: Ryan Murphy
2026 ‧ Body horror ‧ 1 temporada

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