
Eu sempre acho fascinante lembrar que “Pânico” já completou três décadas sem perder a própria identidade. Poucas franquias de terror podem dizer o mesmo. Personagens icônicos como Jason Voorhees e Freddy Krueger até se tornaram maiores que seus filmes, mas suas respectivas sagas precisaram recorrer a reboots, retcons para se manter relevantes, e isso com alguns filmes fracos e sem a mesma energia dos dois primeiros.
O próprio “Sexta-feira 13” e o remake de “A Hora do Pesadelo”, ambos lançados em 2010, não encontraram o sucesso esperado nem de público nem de crítica, o que resultou em hiatos e impasses, inclusive jurídicos, no caso do uso do título original de “Sexta-feira 13”. Por isso, ver “Pânico 7” seguir adiante como continuação direta, sem apagar eventos anteriores ou reinventar sua própria linha do tempo, é algo que merece reconhecimento. Especialmente depois da saída turbulenta de Melissa Barrera e Jenna Ortega, este era o momento decisivo: ou a franquia se sustentava por sua essência, ou finalmente deixaria se perder em meio aos problemas de bastidores.
Confesso que eu já esperava uma retomada acertada. Sempre apostei minhas fichas no elenco original, e, principalmente, na responsabilidade de Kevin Williamson, roteirista dos quatro primeiros filmes, que agora assumiria pela primeira vez a direção. Sua presença recoloca a saga nos trilhos novamente, com uma narrativa e tom que definiram os primeiros capítulos. O retorno de Sidney Prescott, novamente vivida por Neve Campbell, não é apenas fan service: é reconexão, porque nos lembra que o coração dessa franquia sempre foi a resistência de Sidney. E, ao mesmo tempo, o filme não ignora o público que chegou nos capítulos de 2022 e 2023. Personagens recentes também reapareceram na trama, reforçando que estamos diante de uma continuidade, não de uma continuidade retroativa.
Na história, um novo Ghostface surge na cidade onde Sidney (Neve Campbell) construiu uma vida aparentemente tranquila. O passado, como sempre, encontra um jeito de bater à porta — e, desta vez, ameaça diretamente sua filha Tatum (Isabel May). O cenário abandona o caos urbano de Nova York e retorna a uma atmosfera mais íntima, em uma pequena cidade de Pine Grove, que remete ao espírito de Woodsboro, resgatando aquele clima nostalgico que marcou o início da saga.
A cena de abertura já demonstra que o filme entende o peso do personagem Ghostface. Um novo casal visita a famosa casa dos assassinatos, e o jogo telefônico recomeça. As perguntas sobre filmes de terror retornam, mas o desfecho é mais cruel, e impiedoso. O Ghostface aqui não hesita, e a decisão final que encerra essa sequência deixa claro que o perigo voltou a ser real. Não é apenas homenagem: é a atualização de ameaça, em tempos em que fãs de filmes de terror querem vivenciar essas experiências em ambientes imersivos.
O primeiro ato investe bastante no drama familiar entre Sidney e sua filha. Há paralelos evidentes com o passado — inclusive o clássico momento do namorado entrando pela janela. Esse espelhamento desperta em Sidney um medo quase instintivo. Quando ela reluta em contar à filha detalhes sobre os assassinatos e traumas que enfrentou, o filme toca numa questão interessante: até que ponto é possível proteger alguém do próprio passado? Admito que, por alguns minutos, temi que a narrativa fosse por um caminho previsível demais. Mas o roteiro encontra uma saída inteligente ao incorporar o medo contemporâneo da tecnologia. O uso de inteligência artificial para manipular imagens e simular rostos do passado — inclusive de antigos assassinos — adiciona uma camada psicológica perturbadora. O terror deixa de ser apenas físico; passa a ser também psicológico, invasivo, e muito mais íntimo.
As cenas de perseguição não reinventam a roda, e nem precisam. Algumas remetem à momentos clássicos da própria franquia, como o ataque em um teatro, agora com violência mais explícita. Longe de ser um defeito, essa escolha funciona como um tributo consciente à própria trajetória. A diferença está na condução. A direção de Kevin Williamson demonstra segurança ao construir tensão em pequenos espaços. Há uma sequência particularmente sufocante em que a faca atravessa frestas na parede enquanto as personagens tentam escapar do outro lado. A câmera acompanha cada movimento com precisão, e a trilha sonora intensifica a sensação de desespero. Não é exibicionismo estético; é linguagem a serviço da imersão.
Este Ghostface é mais brutal, menos atrapalhado como vimos no primeiro filme da franquia. Em determinados momentos, lembra a imponência quase animalesca de Michael Myers na releitura dirigida por Rob Zombie. Há uma morte específica envolvendo uma máquina de fazer chop, que se tornou uma das mais perturbadoras de toda a saga — uma criatividade mórbida que remete ao engenho cruel da franquia “Premonição”. Mesmo nas sequências de mortes mais rápidas, o impacto visual é bastante marcante pela maneira que a direção conduz estes momentos.
As referências ao passado estão espalhadas por todo o filme, com citações a Billy Loomis (Skeet Ulrich) e Stu (Matthew Lillard), aparições simbólicas de antigos assassinos recriados por manipulação de inteligência artificial que segue como um contexto interessante que atualiza a abordagem da ameaça, e o retorno de Gale Weathers ao lado de personagens recentes como Chad (Mason Gooding) e Mindy (Jasmin Savoy Brown). O retorno desses personagens reforça que estamos diante de uma linha narrativa contínua, e isso é interessante porque o primeiro ato ignora bastante os eventos dos filmes anteriores, o que nos faz pensar que estamos acompanhando quase uma continuação direta do primeiro filme. E a metalinguagem, claro, permanece afiada. Desde 1996, “Pânico” revitalizou o slasher ao comentar suas próprias regras. Aqui, quando Mindy ironiza a possibilidade de um retcon envolvendo Stu, o filme dialoga diretamente com a obsessão nostálgica do público e estabelece seus próprios limites. Mais uma vez, acompanhamos o filme com sua autoconsciência, algo que se tornou a marca registrada da franquia.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Pânico 7 (Scream 7)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ — (8.0/10) Ótimo
Direção: Kevin Williamson
2026 ‧ Terror slasher ‧ 1 56m