“O Drama” prova que o cinema contemporâneo ainda sabe surpreender

Quando algumas pessoas afirmam que o cinema contemporâneo é ruim ou está morrendo, sempre penso que elas estão assistindo aos filmes errados — talvez focadas apenas em reboots e remakes de sucessos do passado. “O Drama” é mais um belíssimo exemplo de que a sétima arte ainda pulsa com ideias novas e ousadas. Mesmo que obras assim pareçam mais escassas, ainda existem produções marcantes nesta década que merecem a nossa total atenção.

Escrito e dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli (conhecido por “Doente de Mim Mesma” e “O Homem dos Sonhos”), o novo longa é um drama, mas também um romance. A obra flerta com aquele “humor de constrangimento” que remete ao sucesso da série “The Office”. Embora não adote o formato de falso documentário, desperta a mesma sensação de riso culpado diante de situações embaraçosas. Aqui, o efeito é ainda mais intenso por envolver uma temática séria, capaz de despertar reações distintas em cada espectador e, possivelmente, acionar gatilhos em quem já vivenciou algo parecido.

Na trama, Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) estão apaixonados e imersos nos preparativos finais para o casamento, até que entram em conflito ao descobrirem segredos inimagináveis. A imprevisibilidade da revelação coloca em risco toda a confiança e o amor do casal, trazendo ao longa uma nova e dura perspectiva sobre o romantismo. Intrigados e abalados com a situação, eles passam a se perguntar se realmente conhecem um ao outro e são forçados a refletir sobre o futuro da relação.

É fascinante observar como o filme usa o absurdo e o extremo para discutir temas cruciais dentro de um relacionamento — por exemplo, até que ponto é saudável conhecer o passado do parceiro, visto que certas revelações talvez nunca precisassem vir à tona. Afinal, a grande pergunta que a narrativa procura dissecar é: “até onde realmente conhecemos a pessoa que amamos?”.

A cena de introdução, durante os créditos iniciais, mostra o casal em uma aula de dança. Logo de cara, a química entre Zendaya e Robert Pattinson evidencia o quanto os atores estão entrosados, funcionando em cena com muita naturalidade. O início do filme também resgata o primeiro encontro de Emma e Charlie em um café, no melhor estilo romântico clássico, que rapidamente evolui para uma situação inusitada quando ficam presos em um museu após o disparo de um alarme.

É interessante notar como esse começo de namoro já antecipa o que veremos no decorrer da obra: algo que nasce de forma clichê e, de repente, sofre o efeito do caos. Contudo, nada prepara o público para o verdadeiro turbilhão que se desencadeia quando o casal vai degustar vinhos em uma noite com dois amigos.

O segredo perturbador sobre a juventude de Emma deixa todos na mesa embasbacados, incluindo uma amiga que, aos gritos, a repudia após a confissão. Charlie também fica desnorteado com a revelação e, a partir desse momento, passa a questionar seus sentimentos, o casamento iminente e até mesmo a fantasiar situações de perigo ao lado da noiva.

Além de toda a tensão arquitetada pelo roteiro, é preciso exaltar a excelente direção, a montagem e a trilha sonora, que juntas criam esse clima de humor deslocado, fazendo com que cada interação pareça um verdadeiro campo minado.

O filme revisita o passado de Emma para mostrar como ela saltou de um extremo ao outro. Embora isso seja retratado de maneira simples e até cômica, não encaro como um defeito; pelo contrário, dentro da lógica do gênero, um aprofundamento puramente dramático desviaria totalmente a obra de sua proposta inicial. O absurdo aqui é explorado de maneira bastante consciente, justamente para provocar a estranheza e, a partir dela, extrair os risos nervosos do público diante daquelas situações constrangedoras.

Outro momento que me arrancou risadas ininterruptas foi a da sessão de fotos pré-casamento. Enquanto a fotógrafa perguntava o que cada um via de melhor no outro, as respostas contidas e repetitivas de Charlie, somadas às excelentes atuações de ambos — repletas de “caras e bocas” e expressões de desapontamento —, trouxeram uma sensação desesperadoramente cômica para a cena.

A genialidade do roteiro também se consolida na forma como trabalha o conflito interno do protagonista. Em uma tentativa de racionalizar o absurdo, Charlie chega a sugerir aos amigos que a situação seja um reflexo de um problema cultural, levantando a incômoda hipótese de que muitos já devem ter pensado em fazer a mesma coisa em algum momento da vida. Esse peso psicológico ganha contornos ainda mais reais durante uma conversa com uma amiga do trabalho. A maneira como o texto se desenvolve a partir daí é extremamente interessante, pois tem o mérito de nos colocar de forma imersiva na pele do personagem, fazendo com que o espectador seja engolido pelas mesmas dúvidas que o transformaram em uma figura atormentada.

Toda essa espiral de incertezas deságua inevitavelmente no aguardado evento, criando um autêntico clima de bomba-relógio que se instala em cada segundo da celebração. É praticamente impossível acompanhar a escalada dessa tensão sem remeter à antológica sequência do casamento de “Relatos Selvagens”, tamanha a sensação de que tudo vai implodir a qualquer instante. O casório toma rumos completamente inesperados, arrancando da plateia aquelas genuínas risadas de constrangimento perante o absurdo da situação.

Por fim, o longa ainda guarda um trunfo na manga sobre a forma como manipula os nossos sentidos. Subvertendo qualquer expectativa, a obra entrega um jumpscare tão bem executado que resultou no maior susto que tive nos cinemas recentemente — superando, inclusive, o impacto de vários filmes voltados exclusivamente para o terror. É a prova definitiva de que a construção gradativa da tensão, quando atinge seu ápice, é implacável, encerrando a experiência de forma imprevisível e memorável.

Confira o trailer:

🍿 Filme: O Drama (The Drama)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (10/10) Excelente

Direção: Kristoffer Borgli

2026 ‧ Romance ‧ 1h 46m

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