“Michael” prova que sucesso de bilheteria não significa grande cinema

Em “Michael”, a aguardada cinebiografia do Rei do Pop, o diretor Antoine Fuqua (de “Dia de Treinamento” e da trilogia “O Protetor”) nos lembra rapidamente o porquê o cantor sempre foi considerado o maior ícone da música. Na pele do tio, Jaafar Jackson faz o filme pulsar quando precisa recriar o espetáculo. A cena de introdução, que acompanha as vestimentas estilizadas do astro a caminho do palco, já estabelece a principal (e talvez única) força do longa: a reverência à performance.

Quando a narrativa retrocede para explorar a infância em Gary, Indiana, e os embates com o patriarca Joe Jackson, a estrutura se apoia em uma cartilha protocolar, ainda que funcional. O ator mirim Juliano Valdi entrega uma carga dramática poderosa e genuína, situando o espectador na dura realidade de uma criança guiada pela mão de ferro de um pai abusivo. Joe é retratado sob a justificativa distorcida de que a rigidez castradora criaria vencedores, não fracassados. As exigências para que o filho o olhasse nos olhos durante os treinos exaustivos e os discursos sobre esforço e sucesso ecoam figuras paternas de filmes mais recentes como “King Richard: Criando Campeãs” ou de “Air: A História Por Trás do Logo”. E mais uma vez, esse tipo de filme parece nunca querer explorar um pouco mais desse perfil predatório de um homem que, no fundo, visava lucrar com o talento do próprio filho.

O primeiro ato despacha a ascensão dos The Jackson 5 com uma pressa sintomática, embora o frescor da apresentação no parque ao som de “I’ll Be There” seja um acerto pontual. No entanto, o verdadeiro problema rítmico se instaura na fase adulta. Quando Michael decide gravar um álbum solo e exige que seus produtores dobrem a resistência do pai, que cede sob uma única condição, o filme escancara sua ruptura estrutural. A narrativa, que até então tentava respirar, é engolida por uma montagem acelerada, diálogos expositivos e resoluções fáceis.

É nesse vazio dramatúrgico que surge o maior contraponto da obra: se o roteiro falha em sustentar o desenvolvimento de personagens, os números musicais explodem na tela. A apresentação de sua primeira canção solo é emocionante, ilustrando o furacão do seu sucesso meteórico. Porém, fora dos palcos, a artificialidade toma conta. A introdução do famoso chimpanzé Bubbles, por exemplo, é simpática, mas o uso irregular do CGI cria um vale da estranheza imediato. Esse mesmo incômodo se estende à caracterização de Colman Domingo. Por mais talentoso que o ator seja, ele acaba soterrado por maquiagem e perucas exageradas, conferindo a Joe Jackson uma aura caricata típica de produções de Hollywood.

Temas cruciais, como a primeira menção ao vitiligo e a cirurgia plástica no nariz, motivada pelos xingamentos do pai, são jogados na tela sem qualquer respiro. Fica evidente que a direção presume que o público já conheça a vida do astro de antemão. Esse é um grave erro narrativo: um filme precisa se bastar e funcionar independentemente da bagagem prévia do espectador. Quando John Branca (Miles Teller) assume como produtor da nova fase solo e tem como a orientação de Michael para demitir o próprio pai, a aguardada ruptura familiar acontece de maneira tão banal que todo o peso dramático se esvai em segundos.

A gênese dos grandes clássicos sofre do mesmo mal. A construção do videoclipe de Thriller surge totalmente desconexa da progressão narrativa. O roteiro se contenta em mostrar o artista assistindo a um clássico de terror e colando um post-it escrito “Thriller” em um painel, em uma simplificação que beira o absurdo diante de um dos períodos mais geniais e criativos da música. Ignora-se, por exemplo, a fascinante transformação da faixa, que nasceu como Starlight, até ganhar a força definitiva com a locução sombria de Vincent Price.

O longa peca, sobretudo, pela omissão de pilares fundamentais. Faz muita falta a presença de Diana Ross, figura central em sua formação, e um olhar mais aprofundado sobre os bastidores de The Wiz (“O Mágico de Oz”), onde sua parceria vital com Quincy Jones se formou, aqui reduzida a minutos insuficientes. Ficam de fora os icônicos bastidores do solo de Eddie Van Halen em “Beat It”, a colaboração histórica com Lionel Richie em “We Are the World”, e o enérgico dueto de “State of Shock” (do projeto Victory) com Mick Jagger. Não são omissões que anulam a veracidade da trama, mas empobrecem o retrato de um gênio cuja magnitude foi moldada justamente nessas intersecções culturais.

Essas falhas estruturais expõem a maior fraqueza do protagonista. Jaafar Jackson prova ser um dançarino e cantor formidável, mas esbarra em suas próprias limitações assim que a música para. Sua atuação é frágil e incapaz de carregar cenas que exigem estofo dramático. Isso fica gritante no trato do trágico acidente nas gravações do comercial da Pepsi em 1984. O momento crucial em que Michael sofre queimaduras de 2º e 3º grau — um evento que marcou o início de seus problemas com analgésicos — e a subsequente visita à ala de queimados no hospital são conduzidos com um sentimentalismo piegas e superficial. A estética e a entrega dramática assumem uma textura pasteurizada, lembrando telefilmes melodramáticos de streaming, sem a grandeza cinematográfica que a vida do cantor exigia.

Em contrapartida à grande parte da crítica especializada, que centrou suas ressalvas na ausência das polêmicas envolvendo o cantor, essa omissão não desponta como a principal falha da obra. É compreensível que o apagamento das controvérsias seja apontado como um demérito — afinal, mesmo que as primeiras acusações formais tenham ocorrido apenas em 1993, os burburinhos e especulações em torno de Neverland já orbitavam o astro no período retratado e poderiam, sem dúvida, adicionar densidade narrativa. Contudo, essa higienização biográfica acaba sendo o menor dos problemas diante das deficiências cinematográficas e estruturais que esvaziam a experiência.

Muitos fãs empolgados têm usado o indiscutível sucesso de bilheteria como escudo para validar a qualidade do longa. Porém, arrecadação nunca foi sinônimo de qualidade. Filmes clássicas como “O Enigma de Outro Mundo”, “Blade Runner” e “Clube da Luta” fracassaram nas bilheterias. Por outro lado, cinebiografias superiores, como “Rocketman”, “Elvis” e “Better Man – A História de Robbie Williams”, ousaram explorar a psique de seus biografados com inventividade e linguagem cinematográfica mais inspiradas, mesmo não alcançando bilheterias exorbitantes.

No fim das contas, a cena de encerramento, com os Jacksons no palco, apenas reafirma a tese central do filme: “Michael” só se sustenta pela força colossal do legado musical que tenta emular. A última performance solo do cantar, também evidencia o talento físico de Jaafar Jackson, mas, quando os créditos finais sobem, o que sobra é apenas um recorte apressado de uma das vidas mais complexas da cultura pop. O filme serve como um bom registro musical, mas deixa a desejar como a cinebiografia definitiva do astro.

Confira o trailer:

🍿 Filme: Michael
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ – (5.0/10) Mediano

Direção: Antoine Fuqua

2026 ‧ Musical/Drama ‧ 2h 8m

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