“Obsessão” prova que o amor excessivo pode ser mais assustador que qualquer força sobrenatural

Saber que “Obsessão”, o mais novo filme de terror do diretor iniciante Curry Barker, (do sucesso independentede terror found footage “Milk & Serial”), custou cerca de 750 mil dólares, traz uma certa esperança de que as distribuidoras finalmente entendam que ainda é possível lucrar apostando em histórias originais. Mesmo partindo de uma premissa já conhecida, o clássico “cuidado com o que deseja”, é impressionante como o cineasta consegue agora transformar essa ideia em algo genuinamente perturbador e muito mais eficiente do que produções como “O Mestre dos Desejos”. E faz isso ao misturar terror psicológico, humor ácido e um estudo cruel sobre relacionamentos abusivos.

O mais curioso é perceber como “Obsessão” faz tudo aquilo que filmes recentes como “Juntos” tentaram abordar, mas sem a mesma coragem. Enquanto muitos longas contemporâneos parecem receosos de ultrapassar certos limites, Curry Barker mergulha de cabeça no horror da dependência emocional, levando sua proposta ao extremo mais desconfortável possível. Ainda assim, o diretor nunca abandona o humor sombrio que permeia a narrativa, usando o absurdo como parte essencial da experiência. Há momentos em que o filme provoca puro desconforto, mas em outros é impossível não soltar uma risada involuntária diante da insanidade que toma conta da tela.

A trama acompanha Bear, interpretado por Michael Johnston, em um papel que exige do ator um equilíbrio difícil entre vulnerabilidade, desespero e culpa. Após perder sua gata e entrar em um colapso emocional devastador, Bear compra um artefato misterioso e faz um desejo impulsivo: que Nikki, personagem de Inde Navarrette, o ame incondicionalmente. E é justamente aí que o filme encontra sua força, porque o desejo é realizado da forma mais literal, e aterrorizante. A primeira grande demonstração disso acontece em uma sequência dentro do carro, durante a noite, quando Nikki passa a agir de maneira completamente diferente. O diretor conduz essa transformação com um desconforto crescente, criando uma atmosfera estranhamente opressiva. O mais interessante é que o roteiro deixa claro, desde cedo, que nem a própria Nikki parece entender o que está acontecendo consigo mesma. Em diversos momentos, ela demonstra pequenos lapsos de consciência, como se parte dela estivesse presa dentro daquele comportamento obsessivo contra a própria vontade.

Esse cuidado do roteiro é fundamental, porque torna toda a tragédia ainda mais dolorosa. Bear entende que tudo aquilo é consequência direta do seu desejo, e isso impede que ele simplesmente enxergue Nikki como um “monstro”. Existe culpa, responsabilidade e até compaixão no meio daquele caos. São escolhas narrativas como essa que evidenciam a inteligência de Curry Barker como cineasta. Ele entende que, para um horror funcionar de verdade, não basta apenas criar cenas chocantes; é preciso construir personagens convincentes e emocionalmente compreensíveis.

Não à toa, Curry Barker foi escolhido para comandar o reboot de “O Massacre da Serra Elétrica” após o fracasso da versão lançada pela Netflix em 2022. E “Obsessão” deixa claro o motivo dessa escolha: Barker entende que o horror só se torna memorável quando existe humanidade suficiente para fazer o espectador se importar com quem está sofrendo.

Visualmente, o filme também impressiona. A direção de fotografia utiliza enquadramentos precisos e uma iluminação soturna, extremamente consciente para traduzir o estado psicológico dos personagens. Em diversos momentos, Nikki surge parcialmente mergulhada na escuridão, como se o diretor quisesse mostrar que Bear já não consegue mais enxergar a mulher pela qual se apaixonou — apenas a sombra monstruosa que nasceu da sua própria obsessão.

E é justamente por isso que “Obsessão” funciona tão bem. Apesar dos exageros e do tom quase surreal de algumas cenas — que, inclusive, evocam ecos do terror de “Sorria”, o filme encontra semelhanças em experiências reais. Em algum momento da vida, muita gente já se deparou com relações marcadas por ciúme excessivo, dependência emocional, controle ou possessividade. O longa apenas amplifica esses sentimentos até um nível grotesco para revelar o quão assustadores eles podem se tornar.

Existe uma cena específica que resume perfeitamente a proposta do filme: quando Bear precisa sair para trabalhar, Nikki entra em desespero absoluto, chegando a urinar enquanto espera por ele no mesmo lugar em que foi deixada. A sequência claramente remete ao comportamento de um animal abandonado pelo dono, e é justamente isso que a torna tão perturbadora. Barker transforma o amor obsessivo em algo animalesco, irracional e destrutivo, como se toda humanidade da personagem tivesse sido consumida pela necessidade doentia de pertencimento.

Os surtos de Nikki inevitavelmente remetem a filmes de possessão e assombração, mas o grande trunfo de “Obsessão” é justamente mostrar que o verdadeiro terror continua sendo humano. A fusão entre horror psicológico e elementos visuais quase sobrenaturais cria uma experiência sufocante, onde o espectador sente o desgaste físico e emocional de Bear a cada nova cena.

“Obsessão” usa o terror para discutir relações tóxicas, dependência emocional, ciúme e possessividade sem qualquer receio de incomodar o público. E talvez o mais admirável seja justamente o fato de que Curry Barker nunca tenta suavizar sua visão para entregar conforto ao espectador. Não existe aqui aquele final domesticado pensado para agradar plateias acostumadas a saírem emocionalmente intactas do cinema.

Por isso, o longa e consolida facilmente como um dos filmes de terror mais interessantes dos últimos anos, ao lado de “Faça Ela Voltar”, “A Substância” e “Hereditário” — obras que entenderam que o terror mais poderoso é aquele capaz de usar os excessos do gênero para potencializar dores, traumas e obsessões genuinamente humanas.

Confira o trailer:

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