
Se tem um diretor contemporâneo que sabe criar uma atmosfera sombria e imersiva, além de Robert Eggers, esse diretor é o cineasta irlandês Damian McCarthy, que me surpreendeu com seu primeiro trabalho, “O Alerta” (Caveat), e mais tarde voltou a chamar atenção de muitos com “Oddity”, embora eu tenha gostado menos deste segundo, ainda era evidente o domínio técnico do diretor na construção do suspense e, principalmente, na maneira como manipula uma atmosfera densa e inquietante.
Só que em “Hokum”, seu trabalho mais recente dentro do gênero, McCarthy faz a junção perfeita de tudo aquilo que funcionava em seus filmes anteriores. Aqui existe aquele mundo decadente e opressor, a sensação de clausura, o medo que se instala gradualmente até atingir um ápice de tensão, mas agora tudo isso vem ancorado em uma história sobre os maiores demônios das mazelas humanas. O mais interessante é perceber como o diretor trabalha o terror psicológico apoiado nos erros, culpas e traumas do ser humano, mas sem abandonar o sobrenatural — pelo contrário, ele utiliza ambos como forças complementares, criando uma experiência envolvente e extremamente hipnotizante, sem perder o tom.
Na trama, o escritor de terror amargurado Ohm Bauman (Adam Scott) viaja até uma pousada isolada na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais, sem imaginar que o local carrega a fama de ser assombrado. Durante sua estadia, ele começa a testemunhar acontecimentos estranhos, sinais sobrenaturais e lembranças traumáticas ligadas à figura da mãe, revelando uma culpa profunda que há muito tempo o consome. Mas, conforme novas revelações surgem, ele percebe que existe algo muito mais sombrio naquele lugar do que apenas uma suposta presença paranormal, especialmente quando a bartender do hotel — uma das poucas pessoas gentis com ele — desaparece misteriosamente, enquanto um homem estranho que vive próximo à floresta passa a levantar suspeitas.
Além do mistério envolvendo o desaparecimento da bartender e os segredos das pessoas que cercam aquele hotel, um flashback do passado revela algo profundamente perturbador sobre Ohm Bauman (Adam Scott), e é justamente essa revelação que adiciona uma camada extra ao drama psicológico da narrativa. A culpa do protagonista se transforma em um fantasma tão presente quanto qualquer ameaça sobrenatural, e o filme entende muito bem como explorar esse peso emocional sem tornar tudo excessivamente expositivo. Aos poucos, McCarthy constrói um protagonista quebrado, preso não apenas dentro de um hotel repleto de mistérios, mas também dentro da própria consciência, como alguém condenado a revisitar traumas dos quais jamais conseguiu escapar.
E talvez seja justamente aí que “Hokum” encontre sua maior força: na forma como transforma o espaço físico em um reflexo do estado mental do protagonista. O hotel não funciona apenas como cenário, mas como uma extensão daquele sentimento de culpa, isolamento e deterioração emocional. Cada corredor vazio, cada ambiente decadente e cada detalhe estranho parecem existir para reforçar a sensação de que Ohm está sendo lentamente engolido não apenas pelo lugar, mas por tudo aquilo que passou a vida tentando esconder dentro de si. É mais um terror que entende que, às vezes, os monstros mais assustadores não precisam necessariamente vir do sobrenatural.
Outro ponto que me chamou atenção é como McCarthy evita transformar o mistério em algo puramente explicativo. Mesmo quando as respostas começam a surgir, o diretor mantém uma camada de inquietação constante, permitindo que a atmosfera fale tão alto quanto os acontecimentos em si. Existe um cuidado muito grande na forma como ele dosa tensão, silêncio e estranheza visual, criando um terror que incomoda pela sugestão e pela sensação persistente de que algo está profundamente errado — mesmo quando a narrativa parece oferecer respostas. “Hokum” também vai inevitavelmente te fazer lembrar de filmes como “O Iluminado” e “1408”, especialmente pela forma como transforma um hotel em personagem e acompanha um protagonista emocionalmente fragilizado diante de acontecimentos inexplicáveis. Mas aqui existe uma camada ainda mais delicada, envolvendo um acidente familiar traumático na infância, o que dá um peso emocional muito particular à jornada do personagem.
Gosto muito da forma como os filmes de McCarthy trabalham o terror folclórico e exploram, através de esculturas, bonecos, objetos e imagens perturbadoras, uma iconografia desconfortável que amplifica a sensação de medo. Existe uma preocupação genuína em construir um imaginário visual inquietante que funciona como complemento narrativo, reforçando a atmosfera sem precisar recorrer constantemente aos jumpscares fáceis que dominam boa parte do terror contemporâneo.
Para quem já gostou dos trabalhos anteriores do diretor, como “O Alerta” e “Oddity”, as chances de curtir esse aqui são enormes. Mais uma vez, McCarthy mergulha em elementos do terror ligados a histórias macabras e consegue fazer uma junção muito interessante entre horror psicológico e acontecimentos assustadoramente plausíveis. “Hokum” aposta em um terror psicológico estilizado, mas sem jamais deixar a narrativa de lado. É aquele tipo de filme que vai te puxando aos poucos, criando tensão, mistério e uma inquietação constante, te deixando preso na tela do início ao fim. Se você gosta de um terror atmosférico, sombrio e que mexe mais com a mente do que com sustos fáceis, definitivamente vale ficar de olho.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Hokum
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Damian McCarthy
2026 ‧ Terror ‧ 1h 47m