“Euphoria” troca sua alma por estilo Tarantinesco

A terceira temporada de “Euphoria” começou ousando ao abandonar não apenas a estética que transformou a série em um fenômeno — marcada pelos neons e pela paleta vibrante de roxos, rosas e azuis —, mas também o próprio refinamento visual consolidado na segunda temporada. Além disso, abriu mão de um dos maiores triunfos da série: a trilha sonora original composta por Labrinth, que indiscutivelmente sempre foi um elemento fundamental para a identidade emocional da narrativa.

E é importante frisar que a saída do Labrinth aconteceu por conta de uma desavença nos bastidores, e não por uma decisão criativa planejada. Tanto que algumas músicas compostas por ele — e liberadas posteriormente pelo próprio artista após o lançamento da temporada — deixam bastante evidente que foram originalmente pensadas para a série. Tarentino, por exemplo, lançada como single avulso, tem uma atmosfera que claramente dialoga com o universo de “Euphoria”. Já Prostitute se encaixaria perfeitamente no quarto episódio da temporada. Além dessas, há várias faixas do novo álbum Cosmic Opera Act II, que passam a sensação de terem sido concebidas para esse ciclo da série. Todas carregam aquela energia caótica característica de “Euphoria”, com algumas inclusive assumindo um tom mais sombrio e até depreciativo, o que reforça ainda mais a impressão de que fariam parte da construção emocional da temporada.

Essas mudanças técnicas impactaram diretamente o tom da temporada, somadas a um salto temporal e a um roteiro que, desde o início, pareciam ter mais potencial para jogar contra a série do que a favor. E, pelo que se viu nas reações do público, a temporada acabou dividindo opiniões, com muito mais espectadores frustrados com as escolhas criativas de Sam Levinson do que realmente empolgados com a nova direção.

Particularmente, eu até comprei a nova fotografia, o figurino e a paleta de cores, claramente inspirados pelo cinema de Quentin Tarantino. Existe uma estética atraente nisso tudo. No entanto, é inevitável dizer o quanto a troca de Labrinth por Hans Zimmer jogou contra a própria essência da série. Embora Hans Zimmer seja um gigante do cinema, aqui ele parece nunca encontrar o tom de “Euphoria”, criando composições muitas vezes apagadas e, em certos momentos do episódio final, tão grandiosas que remetem mais a “Gladiador” ou “Duna” do que ao universo da série.

Mas, se as mudanças técnicas poderiam ter sido relevadas diante de um grande roteiro, o problema é que nem isso Sam Levinson consegue sustentar. A terceira temporada não apenas enfraquece características fundamentais de Nate (Jacob Elordi), como também parece esquecer toda a construção de sua personalidade tóxica ao longo dos anos. E isso fica ainda mais evidente quando comparada à série “Pela Metade”, que faz de forma magistral algo que “Euphoria” nem chega perto: mostrar que nem o tempo é capaz de apagar completamente as nuances de uma personalidade masculina tóxica. Na minissérie de Richard Gadd, os traços problemáticos do personagem continuam presentes, ainda que, revelando contradições e cicatrizes que persistem com o amadurecimento — algo que Nate, curiosamente, perde aqui, como se tivesse sido reescrito sem memória do próprio passado.

Além disso, a temporada reduz drasticamente o espaço de personagens importantes, como Jules (Hunter Schafer), e, em alguns episódios, chega até a esvaziar a importância do protagonismo de Rue (Zendaya). E não podemos esquecer, uma das críticas que mais repercutiu envolve a maneira como a sexualização das mulheres foi conduzida, quase como se a vida adulta dessas personagens inevitavelmente passasse pela objetificação do próprio corpo para alcançar sucesso — uma abordagem que gerou comparações imediatas com “The Idol”, outro projeto controverso liderado por Sam Levinson para a HBO.

Ainda assim, mesmo com um gosto amargo predominando, a temporada teve alguns momentos isolados realmente fortes. O casamento entre Cassie e Nate funciona como um dos ápices dramáticos da temporada, e o penúltimo episódio entrega talvez uma das sequências mais tensas e chocantes da série, abraçando de vez um estilo tarantinesco envolvendo um caixão, uma pessoa enterrada viva e até uma cobra venenosa como elemento de tensão. É um episódio impactante, um dos mais chocantes do ano, ainda que o choque muitas vezes soe gratuito ou até desproporcional. Mas, dentro da proposta dessa nova fase da série, funcionou para mim.

O problema reaparece justamente no episódio final, que tenta transformar a violência estilizada típica do cinema de Tarantino em um grande clímax para encerrar a história. Só que, ao meu ver, tudo soa exagerado e deslocado do tom que “Euphoria” construiu ao longo de sua trajetória. A reta final parece excessivamente enrolada, perde tempo demais com a história do Alamo e dedica energia a personagens introduzidos nesta temporada, enquanto nomes centrais como Rue, Jules, Cassie e Maddy acabam ficando em segundo plano. Em muitos momentos, a sensação é menos a de assistir à conclusão de “Euphoria” e mais a de acompanhar um spin-off ambientado no mesmo universo.

E não me entendam mal: “Euphoria” não é a primeira série a mudar drasticamente de identidade em uma terceira temporada. Séries como “Westworld” e “Nip/Tuck” também passaram por transformações radicais. A diferença é que, mesmo estranhando inicialmente essas outras séries, ainda era possível reconhecer nelas aspectos fundamentais do que haviam sido antes. Já aqui, Sam Levinson parece tão empenhado em assumir uma postura quase autoral à la Quentin Tarantino que acaba sacrificando justamente aquilo que tornou “Euphoria” especial: seus personagens, sua identidade visual-musical e a intimidade emocional que conectava o público à trama. A sensação é de que houve uma tentativa de reinventar a série sem lembrar exatamente o que a tornou grande a ponto de chegar até uma terceira temporada.

No saldo final, minha relação com essa terceira temporada de “Euphoria” é bastante amarga, mas ainda não chega ao ponto de considerá-la ruim. Os aspectos técnicos, embora nem sempre combinem com a identidade da série, mantêm o padrão cinematográfico que a HBO costuma entregar. E as narrativas, ainda que pareçam pertencer a outra produção, funcionam dentro da proposta apresentada — quase como se estivéssemos diante de uma série completamente nova. É uma temporada muito inferior às duas primeiras, frustrante para quem amava a essência original de “Euphoria”, mas talvez interessante para quem chegou até aqui sem qualquer apego ao que veio antes. Só que uma série não funciona como uma temporada isolada, então tirem suas próprias conclusões.

Confira o trailer:

🍿 Série: Euphoria
📺 Onde assistir: HBO Max
Nota geral: ✱ ✱ ✱ ✱ 8/10 – Ótima
Nota da terceira temporada: ✱ ✱ ✱ 6/10 – Regular
Criada por: Sam Levinson
2019 ‧ Drama ‧ 3 Temporadas

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