“A Odisseia”: Christopher Nolan entrega um épico visual, mas tropeça na emoção

É indiscutível o quanto Christopher Nolan se consolidou como um dos grandes nomes do cinema contemporâneo, amparado tanto pela crítica especializada quanto por uma parcela significativa do público. Muito disso vem do seu rigor estético: Nolan filma com uma obsessão rara pelo realismo, mas sem abrir mão da beleza imersiva de cada quadro. Há sempre a sensação de que a câmera está registrando algo palpável, mesmo quando a narrativa flerta com o impossível. E poucos diretores filmam ação com tamanha clareza e impacto. Basta lembrar de “A Origem”, “Dunkirk” e “Interestelar”, obras em que espetáculo e precisão caminham lado a lado.

Isso não significa que sua filmografia seja imune a falhas. Nolan frequentemente encontra mais força na engenharia do tempo não-linear e na grandiosidade visual do que na construção de personagens femininas ou na exploração de uma dramaticidade mais incisiva. “Interestelar” talvez seja o exemplo mais evidente dessa tentativa de mergulhar no drama; embora o filme tenha momentos emocionais importantes, eles nunca me atingem com a mesma intensidade das sequências de exploração espacial ou da complexidade de como ele manipula o tempo, que continuam sendo o que mais me fascina e me mantêm completamente imerso em seus filmes.

Dito isso, é impossível não falar de “A Odisseia”, adaptação do poema de Homero. Trata-se de uma obra historicamente difícil de transpor para o cinema, até porque as versões anteriores, entre filmes e minisséries, sempre esbarraram na escala do material original mas sem esse perfeccionismo que torna a sua obra recente a adaptação definitiva dessa obra original, mesmo com suas mudanças que geraram polêmicas. Nolan era sem dúvidas, o cineasta mais preparado para enfrentar esse desafio, assim como Denis Villeneuve foi para “Duna”, outra obra considerada quase inadaptável e que nem mesmo David Lynch conseguiu realizar com o mesmo grau de controle e maturidade.

Quando foi anunciado como diretor do projeto, muita gente temeu justamente o choque entre o universo mítico de Homero e a abordagem realista que marca a carreira de Nolan. Mas bastava lembrar do que ele fez com a trilogia Batman. Depois do tom cartunesco e neon de Joel Schumacher, Nolan surgiu como o oposto: retirou os excessos visuais, o humor espalhafatoso e reconstruiu aquele universo a partir de uma lógica mais concreta, sem eliminar completamente o elemento fantástico. O mesmo princípio se aplica aqui. Ele não tenta negar os deuses, monstros e feitiços da obra original; e consegue inseri-los dentro de uma linguagem cinematográfica que privilegia textura, peso físico e verossimilhança. E o resultado é impressionante: “A Odisseia” consegue unir fantasia e realismo com um equilíbrio admirável.

A trama acompanha Odisseu (Matt Damon) em sua longa viagem de volta para Ítaca após a Guerra de Troia. Enquanto Penélope (Anne Hathaway) espera por seu retorno, o herói atravessa mares dominados por criaturas míticas e forças divinas, encontrando figuras como o ciclope Polifemo, as sereias e a feiticeira Circe. Escrita há cerca de 2.700 a 2.800 anos, é impressionante como essa história consegue dialogar com a nossa realidade, funcionando dentro dos elementos próprios de sua época, mesmo recorrendo ao fantástico em muitos momentos. Afinal, adaptar uma epopeia repleta de batalhas, monstros e intervenções sobrenaturais exige um domínio técnico gigantesco, e Nolan entrega exatamente isso. O filme é um deslumbre visual, sustentado por sequências de ação envolventes e por uma montagem extraordinariamente fluida. A estrutura temporal, marcada por idas e vindas, nunca soa confusa ou artificial; o diretor conduz essas transições com uma naturalidade admirável, fazendo o passado dialogar constantemente com o presente sem comprometer o ritmo da narrativa.

Nas cenas de ação, a sequência de Polifemo é, para mim, uma verdadeira aula de cinema. A criatura impressiona não apenas pelo desenho visual, mas pela sensação de presença física. Nolan filma o impossível como se estivesse registrando um evento real, e é justamente essa fusão entre o mítico e o concreto que dá força ao filme. O mesmo vale para o episódio do Cavalo de Troia, filmado com uma escala monumental, e para os encontros com a feiticeira Circe, que introduzem um estranhamento hipnótico e rendem alguns dos momentos mais fascinantes e assustadores da obra.

Onde o filme perde força é justamente no terreno emocional. Nolan acerta em cheio na adaptação, na construção visual, na ação e no tratamento das figuras míticas, mas, quando a narrativa exige uma entrega dramática mais profunda, ele parece recuar. A cena em que Odisseu se despede de Penélope logo no início demonstra essa fragilidade: percebemos claramente a intenção de emocionar, e Anne Hathaway faz um esforço genuíno para sustentar o peso daquele adeus, mas a direção nunca permite que o momento alcance toda a potência trágica que poderia ter. É um limite que acompanha boa parte da carreira de Nolan: um cineasta brilhante para orquestrar ideias, imagens e tensão, mas que ainda encontra dificuldade quando precisa transformar emoção em algo comovente.

E isso me incomodou bastante, porque reconheço muitos dos acertos de “A Odisseia”, e encontrar um problema justamente no peso dramático e na entrega das atuações de um elenco tão grandioso me pegou desprevenido. Foi algo que me fez até reavaliar parte da filmografia de Nolan e perceber que, embora ele seja quase um artesão do cinema, capaz de esculpir quadros belíssimos, ainda apresenta limitações quando o assunto é direção de elenco. Antes que alguém cite atuações arrebatadoras como a de Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, vale considerar que alguns atores desenvolvem um trabalho de composição muito além do que está necessariamente na condução do diretor. É evidente o nível de entrega e preparação de Ledger para aquele papel. E, olhando para o restante da obra de Nolan, percebe-se que suas atuações mais celebradas costumam vir de intérpretes já extremamente consolidados, como Matthew McConaughey em “Interestelar”, Cillian Murphy em “Oppenheimer” e Leonardo DiCaprio em “A Origem”. Ao mesmo tempo, não dá para ignorar momentos em que essa condução parece falhar.

A cena da morte de Marion Cotillard (mesmo vindo de uma grande atriz que já venceu o Oscar) em “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” virou um exemplo recorrente justamente porque soa artificial dentro de um filme que busca tanta solenidade dramática. Onde quero chegar é que, mesmo com um elenco estelar em “A Odisseia”, consigo contar nos dedos as atuações que realmente me impressionaram. Para mim, as que mais se destacam são as de Anne Hathaway e Robert Pattinson. E, embora eu goste do desempenho de Pattinson como o vilão Antínoo, ainda sinto que ele poderia ter ido mais longe. O mesmo ator já entregou uma atuação monumental em “O Farol”, e, diante da oportunidade de interpretar um antagonista dessa dimensão, eu esperava algo ainda mais intenso e memorável.

E, ainda falando da escalação do elenco, diferentemente da maioria das pessoas que questionou o fato de Lupita Nyong’o interpretar Helena de Troia e sua irmã gêmea, Clitemnestra, isso nunca havia me incomodado. O problema surgiu quando percebi que o diretor pouco aproveita a presença da atriz em cena — o que era, de certa forma, inevitável, já que, no livro, a personagem também ocupa um espaço reduzido na narrativa. Ainda assim, por se tratar de uma adaptação, acho que alguns momentos mostrados apenas em cortes rápidos, como os envolvendo Clitemnestra e Agamenon, poderiam ter recebido mais tempo de tela. Dessa forma, Lupita teria a oportunidade de brilhar como fez nos excelentes “12 Anos de Escravidão” e “Nós”, além de “Um Lugar Silencioso: Dia Um”.

A atuação de Elliot Page também não me surpreendeu, mas quem mais me decepcionou foi Tom Holland. Nos momentos dramáticos, ele quase nunca soava natural, e em algumas cenas eu tinha a sensação de estar vendo um ator forçando o choro. Existe um problema quando você olha para um personagem e imediatamente se lembra de outro, e eu simplesmente não consegui enxergá-lo como Telêmaco. Da mesma forma, consigo imaginar outros atores interpretando Odisseu, e talvez o próprio Christian Bale tivesse sido uma escolha mais interessante. Não que eu não goste de Matt Damon — pelo contrário, adoro trabalhos dele como “O Talentoso Ripley” e “Perdido em Marte” —, mas aqui senti que ele recorria às mesmas expressões o tempo todo, sem transmitir o peso de um personagem que atravessa tantos desafios. Zendaya também me passou a impressão de estar repetindo um registro que eu já tinha visto antes, lembrando bastante sua personagem em “Duna”. No fim das contas, quem realmente me impressionou foram Anne Hathaway e Robert Pattinson. E, entre as participações, adorei Samantha Morton no papel da feiticeira.

Só que, mesmo achando que o peso dramático de “A Odisseia” não alcança a mesma força da ação, da beleza estética e do impacto sonoro do filme, é impossível não admirar o trabalho de Christopher Nolan em realizar um épico com tamanho empenho e precisão. Basta imaginar o nível de cuidado exigido pelas filmagens em IMAX — um formato que demanda muito mais tempo, planejamento e rigor técnico — para entender o quanto há de dedicação envolvida em cada sequência. Em um momento em que diretores que eu admiro profundamente, como David Fincher, acabaram migrando para projetos lançados diretamente no streaming, como “Mank” e “O Assassino”, é admirável ver Nolan seguir na direção oposta. Coincidentemente, embora eu goste mais de um desses filmes do que do outro, nenhum deles chega perto das obras mais marcantes de Fincher.

Por isso, chama atenção o fato de Christopher Nolan não ter se rendido às plataformas e continuar defendendo o cinema como ele acredita que deve ser experimentado: primeiro nas salas de exibição. Há uma valorização genuína da experiência cinematográfica, daquela imersão que só a tela gigante, o som potente e a escuridão da sala conseguem proporcionar. Talvez eu sinta isso de forma ainda mais intensa porque cresci vendo filmes no cinema. Sei o poder que uma sessão pode ter, a sensação de compartilhar emoções com dezenas de pessoas diante de uma imagem monumental. E, por mais que os serviços de streaming tenham evoluído, nenhum deles consegue substituir essa experiência mágica que é o cinema.

Confira o trailer:

🍿 Filme: A Odisseia (The Odyssey)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (9/10) Ótimo

Direção: Christopher Nolan
2026 ‧ Ação/Fantasia ‧ 2h 53m

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