
Quando algo é muito bom, não faltam palavras para elogiar e reverenciar uma obra. Mas, quando algo é muito ruim, faltam adjetivos para expressar o tamanho da decepção. E é exatamente assim que me sinto depois de terminar a décima terceira temporada de “American Horror Story”. O mais frustrante é que nem tudo começou mal. Pelo contrário, gostei dos primeiros episódios e cheguei a defender algumas escolhas que pareciam fazer parte de um mistério maior. Hoje, olhando para a temporada completa, percebo que estava tentando encontrar uma coerência que os próprios roteiristas aparentemente nunca se preocuparam em construir.
Antes de entrar nos problemas, preciso reconhecer os poucos acertos. A escalação do elenco e os aspectos técnicos são, disparados, o que existe de melhor nesta temporada. A cinematografia recupera a identidade visual das fases mais icônicas da antologia, com enquadramentos, fotografia e uma trilha sonora que evocam aquela atmosfera clássica. Rever Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters e tantos outros nomes foi inicialmente prazeroso. O primeiro episódio, inclusive, dirigido por Ryan Murphy, parecia desenvolver algo interessante, mesmo com montagens estranhas e personagens surgindo em situações desconexas. Acreditei que tudo faria sentido em algum momento. Infelizmente, uma boa embalagem não consegue salvar um conteúdo tão mal desenvolvido. Temos aqui um dos piores roteiros de toda a série, disputando esse posto com “Delicate”.
E aqui quero levantar uma teoria pessoal sobre Ryan Murphy. Tenho a impressão de que, quando suas produções recebem determinadas críticas ou ele se afasta do comando criativo, os resultados parecem uma provocação ao próprio público. Penso em “Monstros”, da Netflix, cujas duas primeiras temporadas foram acusadas de romantizar seus personagens, interpretação da qual discordo. Curiosamente, nas histórias seguintes, sobre Ed Gein e Lizzie Borden, encontrei justamente uma abordagem muito mais inclinada à romantização.
Com “American Horror Story”, minha teoria é ainda mais amarga: parece que resolveram reunir Jessica Lange e os personagens mais queridos numa história tão absurda que os fãs nunca mais desejariam vê-los novamente. Não afirmo que exista uma intenção deliberada de destruir esse legado, mas o resultado chega a provocar essa impressão.
Boa parte dessa responsabilidade, na minha avaliação, está no trabalho de Ned Martel e Charlie Carver, que parecem desconhecer a própria mitologia da série. Não me incomoda a tentativa de conectar histórias antigas, mas a maneira como isso foi feito, ignorando acontecimentos, cronologias e características estabelecidas anteriormente. É como se os roteiristas conhecessem os personagens apenas por suas cenas mais famosas, sem compreender verdadeiramente suas trajetórias. Personagens que possuíam histórias complexas passam a agir conforme as conveniências de um roteiro que parece mudar de direção a cada episódio. Não é uma expansão inteligente desse universo, mas uma descaracterização de figuras que levaram anos para conquistar o público.
O exemplo mais absurdo está na tentativa de transformar diferentes personagens de Jessica Lange numa grande família. A revelação de que Irmã Jude seria mãe de Constance Langdon e Fiona Goode, apresentadas como irmãs gêmeas e filhas de Satanás, é uma das decisões mais estapafúrdias que já vi nessa antologia. Além de contrariar a cronologia e informações das temporadas anteriores, essa conexão não acrescenta profundidade alguma às personagens. E o problema se estende às participações que não levam a lugar nenhum, como o retorno de Kai, de “Cult”, inserido sem uma função dramática convincente. É um amontoado de referências e fan service sem qualquer preocupação em construir uma narrativa que justifique tantos reencontros. Uma tentativa desesperada de provocar nostalgia, mesmo que isso custe a coerência da história.
Os dois últimos episódios representam o ápice dessa desorganização. Revelações surgem sem preparação, acontecimentos são resolvidos de maneira conveniente e relações entre personagens são estabelecidas sem desenvolvimento suficiente. O desfecho não consegue dar sentido às escolhas anteriores, deixando a sensação de que acompanhamos uma história que sequer sabia onde pretendia chegar. E não confundo o absurdo proposital, que sempre fez parte da identidade de “American Horror Story”, com ausência de coerência narrativa. Uma coisa é construir um universo delirante, grotesco e exagerado. Outra é usar essas características como desculpa para qualquer decisão de roteiro. O que deveria ser uma celebração da trajetória da série acabou se transformando num desserviço ao próprio legado.
E quero deixar claro que minha decepção não vem de uma exigência de que a série permaneça eternamente presa às suas primeiras temporadas. Considero “Asylum” extraordinária, “Cult” uma das melhores, acho “Freak Show” injustiçada e me diverti bastante com “1984”. Até temporadas irregulares, como “Double Feature”, possuem qualidades que reconheço. Sempre defendi que a antologia precisava experimentar novas histórias e abordagens. Se esta fosse uma temporada independente, com personagens inéditos e um roteiro igualmente fraco, eu poderia descartá-la e seguir em frente. O que me irrita é justamente a decisão de comprometer histórias anteriores para sustentar uma narrativa que não consegue funcionar por conta própria. É uma afronta à inteligência de quem acompanha esse universo há mais de uma década.
Chego ao final desta crítica com uma sensação que raramente tive acompanhando “American Horror Story”: a vontade de que a série seja encerrada, caso não exista mais interesse em tratá-la com o cuidado que merece. Ryan Murphy e Brad Falchuk construíram um universo extraordinário, que ainda considero um dos mais interessantes do terror televisivo, e gostaria muito que voltassem a participar ativamente de seus roteiros.
Não espero que todas as temporadas sejam excelentes, mas que ao menos respeitem aquilo que tornou essa antologia tão especial. Reuniram um elenco extraordinário, recuperaram personagens queridos, resgataram uma estética que eu sentia falta e tinham tudo para entregar uma temporada memorável. Conseguiram, mas pelos piores motivos. Depois de treze temporadas, jamais imaginei que o maior horror de “American Horror Story” pudesse ser o seu próprio roteiro.
Confira o trailer:
📺 Série: American Horror Story: 13 (Temporada 13)
🍿 Onde assistir: Disney+
Nota da temporada: ✱ (2.0/10) – Péssima
Criada por: Ryan Murphy & Brad Falchuk
2026 ‧ Terror/Drama ‧ 13 episódios