
Não é de hoje que o terror psicológico vem ganhando cada vez mais espaço dentro do gênero. De “Corra”, de Jordan Peele, e “Hereditário” até produções recentes como “Obsessão” e “Leviticus”, o terror encontrou na última década diferentes maneiras de transformar questões contemporâneas em conteúdo para provocar medo, desconforto e reflexão. Curiosamente, muitos desses filmes surgem justamente de cineastas em início de carreira, dispostos a experimentar e testar os limites do gênero.
É também o caso de “It Ends”, primeiro longa-metragem de Alexander Ullom, um diretor que demonstra boas ideias e segurança na construção da atmosfera, mas que ainda parece não saber exatamente o que fazer com tudo aquilo que propõe.
“It Ends” parte de uma premissa bastante intrigante e, ao mesmo tempo, claustrofóbica. O longa mostra como uma simples saída para comer pode se transformar no pior pesadelo de um grupo de amigos. Após entrarem em uma estrada isolada, quatro jovens recém-formados descobrem que estão presos em uma rodovia que desafia qualquer lógica: os quilômetros se repetem e, aparentemente, não existe caminho de volta. Confinados dentro do carro, eles percebem que algo desconhecido passa a persegui-los sempre que tentam interromper a viagem. À medida que o medo e o cansaço aumentam, o grupo precisa decidir entre continuar dirigindo rumo ao desconhecido ou enfrentar aquilo que os aguarda do lado de fora.
Eu gosto muito do primeiro ato, porque o diretor consegue transmitir o medo, a paranoia e, principalmente, o desgaste de personagens que começam a perceber que estão presos em uma situação aparentemente impossível. A repetição da estrada funciona justamente porque, nesse primeiro momento, ainda existe o mistério. Cada retorno ao mesmo ponto aumenta a sensação de impotência, e tudo se torna ainda mais assustador quando eles descobrem que não estão tão sozinhos quanto imaginavam, quando encontram pessoas completamente fora de si, tornando aquele percurso ainda mais perturbador. O filme, inclusive, não demora muito para revelar essa ameaça, o que inicialmente parece abrir caminho para uma série de possibilidades. É justamente aí que “It Ends” parece mais promissor: quando ainda não sabemos quais são as regras daquele lugar e até onde o diretor pretende levá-las.
O problema é que Alexander Ullom parece gastar boa parte de suas melhores ideias ainda nesse primeiro ato. Depois disso, “It Ends” começa a se alimentar da repetição sem encontrar novas formas de transformar esse caos em tensão progressiva. Quando a metáfora central começa a ficar evidente, o filme também se torna mais previsível e, consequentemente, menos assustador. As possibilidades ligadas ao terror vão se esgotando e o interesse passa a depender quase exclusivamente da maneira como aqueles jovens reagem à situação. Algumas explicações são levantadas pelos próprios personagens, incluindo a possibilidade de estarem em algum tipo de purgatório, mas o roteiro verbaliza essas hipóteses cedo demais para que realmente acreditemos nelas. Afinal, dificilmente um filme entregaria sua principal revelação nos primeiros minutos. Eliminadas essas possibilidades, o caminho para compreender o que aquela estrada representa se torna consideravelmente mais estreito, e a resposta se torna mais existencial do que sobrenatural.
O maior problema surge quando essa metáfora deixa de ser uma sugestão e passa a dominar explicitamente os diálogos. Quanto mais os personagens verbalizam aquilo que o filme pretende discutir, menos interessante a reflexão se torna. No primeiro ato, o próprio enclausuramento já dizia muita coisa: aquela estrada interminável, o desgaste físico, a repetição e a impossibilidade de compreender o destino produziam uma inquietação muito mais poderosa justamente porque não havia respostas. Quando tudo ainda era uma incógnita, eu já imaginava que a mensagem caminhava nessa direção e sentia muito mais o peso da situação.
A partir do momento em que “It Ends” deixa de confiar nas imagens e no terror para desenvolver sua ideia e passa a externalizá-la por meio de diálogos cada vez mais explicativos, o longa perde parte de sua força. O que antes era uma experiência passa a ser praticamente uma tese sendo discutida pelos personagens. É uma diferença importante em relação a “Obsessão”, por exemplo, que encontra maneiras criativas, físicas e perturbadoras de desenvolver seu tema central sem abandonar aquilo que o torna um filme de terror.
“It Ends”, ao contrário, parece progressivamente sacrificar o gênero para explicar sua metáfora. O resultado é um filme que começa assustando para fazer pensar, mas termina explicando demais aquilo que já havia conseguido comunicar muito melhor através da imprevisibilidade e do medo que o desconhecido é capaz de criar.
E não me entendam mal: quando digo que o filme se torna óbvio, não significa que considero sua mensagem desinteressante ou irrelevante. Pelo contrário, a temática pode render bons debates, talvez até mais interessantes do que a própria condução do filme. Minha questão não está nas intenções de Ullom, mas na maneira como ele desenvolve essas intenções durante uma hora e meia. Existe aqui uma ideia muito interessante que talvez funcionasse perfeitamente em um curta-metragem de 20 ou 30 minutos. Transformada em longa, porém, ela precisa se repetir tantas vezes que sua simplicidade, inicialmente uma virtude, começa a revelar suas limitações.
Como o cineasta decidiu explorar essa premissa em um longa-metragem, havia inúmeras possibilidades para criar tensão dentro daquele ambiente limitado e a partir dos elementos apresentados inicialmente. Imagine, por exemplo, usar as pessoas presas naquela floresta como uma espécie de ataque pessoal a cada um dos personagens centrais. Seria uma metáfora interessante para os obstáculos que encontramos ao longo da vida, inclusive pessoas que tentam atrapalhar o nosso caminho. A própria estrada poderia apresentar dificuldades que prolongassem ainda mais o percurso: bloqueios, acidentes ou até mudanças climáticas, com chuvas, neve ou qualquer outro elemento capaz de transformar aquele espaço e movimentar a narrativa. Senti falta justamente dessa escalada. Filmes como “Obsessão”, “A Substância” e “Mãe!” também partem de ideias muito específicas, mas levam suas propostas ao limite, ampliando progressivamente os conflitos e encontrando novas maneiras de provocar o espectador. “It Ends”, por outro lado, parece se contentar em repetir sua dinâmica por tempo demais, o que acaba tornando a experiência mais monótona do que angustiante.
Talvez por isso o alarde em torno de “It Ends” também tenha provocado o efeito contrário em mim. Manchetes afirmando que o filme teria superado “Obsessão” entre os críticos ou tratando-o como uma obra brilhante sobre existencialismo criaram uma expectativa que o próprio longa não conseguiu sustentar. Não porque “It Ends” seja ruim, mas porque existe uma distância considerável entre ter uma boa metáfora e conseguir desenvolvê-la cinematograficamente durante 90 minutos. Alexander Ullom demonstra potencial, especialmente na construção do primeiro ato, mas seu filme parece acreditar que repetir e explicar uma ideia é o mesmo que aprofundá-la. E não é. No fim, “It Ends” começa como um terror inquietante sobre algo que não conseguimos compreender e termina excessivamente preocupado em explicar uma reflexão que já havíamos compreendido muito antes.
Confira o trailer:
🍿 Filme: It Ends
📺 Onde assistir: Stremio
Nota: ✱ ✱ ✱ – (6.0/10) Bom
Direção: Alexander Ullom
2025 ‧ Terror psicológico ‧ 1h 29m