“O Fim da Rua” começa como um pesadelo e termina refém das convenções de Hollywood

Filmes sobre tubarões ou dinossauros parecem condenados a viver à sombra de Steven Spielberg. Não por acaso: o cineasta norte-americano praticamente estabeleceu dois parâmetros difíceis de superar com “Tubarão” e “Jurassic Park”. Talvez seja justamente por isso que David Robert Mitchell mereça tantos créditos por “O Fim da Rua”, seu novo filme. Ao mergulhar no universo dos dinossauros, Mitchell demonstra compreender algo que boa parte dos cineastas que assumiram “Jurassic Park” depois da saída de Spielberg parece ter esquecido: essas criaturas funcionam muito melhor quando provocam fascínio e medo antes de simplesmente ocuparem a tela.

Existe um cuidado enorme na construção desse ambiente antes que ele seja tomado pelas criaturas. A câmera observa os espaços, acompanha os personagens e explora muito bem a profundidade dos enquadramentos. Em determinados momentos, vemos um personagem abandonar o quadro enquanto outro surge dentro do mesmo plano, sem que a montagem precise conduzir nosso olhar o tempo inteiro. É um tipo de encenação que lembra como cineastas como Alfred Hitchcock utilizavam a própria composição da imagem para criar expectativa e tensão. Mitchell entende que direção não significa apenas decidir onde colocar uma câmera, mas também controlar aquilo que o espectador vê, quando vê e, principalmente, aquilo que ainda não consegue enxergar.

Nesse momento, o terror ganha uma força que curiosamente desapareceu de boa parte dos sucessores de “Jurassic Park”. Spielberg nunca esqueceu que dinossauros também poderiam ser monstros. Basta lembrar da sequência do T-Rex na chuva ou dos velociraptors perseguindo crianças dentro de uma cozinha. Havia aventura, encantamento e espetáculo, mas também existia suspense. Conforme a franquia foi se tornando uma propriedade cada vez mais dependente da repetição e da necessidade de alcançar o maior público possível, esse perigo foi domesticado. Os dinossauros continuaram gigantes, mas cinematograficamente ficaram cada vez menos assustadores.

O cineasta parece compreender exatamente o que se perdeu nesse processo. Por alguns momentos, “O Fim da Rua” chega a sugerir o filme de dinossauros que uma grande franquia talvez já não tenha coragem de fazer: estranho, imprevisível e disposto a incomodar o espectador. O problema é que essa coragem não sobrevive completamente ao último ato.

Na reta final, o filme começa a abandonar parte das escolhas que o tornavam tão particular e se aproxima justamente do modelo de blockbuster familiar do qual parecia disposto a escapar. É difícil assistir a essa mudança sem imaginar algum tipo de preocupação comercial por trás das decisões, embora não seja possível afirmar que tenha existido interferência do estúdio. A sensação está na própria obra: quanto mais “O Fim da Rua” se aproxima do fim, mais convencional ele se torna.

E isso chama ainda mais atenção quando lembramos que estamos falando do diretor de “Corrente do Mal” e “O Mistério de Silver Lake”, dois filmes que podem dividir opiniões, mas dificilmente podem ser acusados de escolher o caminho mais seguro. David Robert Mitchell sempre demonstrou interesse pelo estranho, pelo desconfortável e pelo que permanece sem explicação. Por isso, quando “O Fim da Rua” começa a aparar suas próprias arestas para assumir uma estrutura mais palatável, temos a impressão de assistir a um cineasta extremamente autoral sendo gradualmente empurrado para dentro das regras de uma produção que precisa conversar com toda a família.

E quando citei Steven Spielberg no começo, não foi apenas pela escolha de colocar dinossauros novamente no centro de uma grande aventura. A influência do cineasta está espalhada por “O Fim da Rua”. Existe aqui uma tentativa evidente de recuperar aquele cinema de aventura dos anos 1980, no qual crianças, famílias e acontecimentos extraordinários dividiam espaço, como em “E.T. – O Extraterrestre” e produções daquele período como “Os Goonies”.

A excelente reconstrução de época reforça essa sensação, mas Mitchell é mais interessante justamente quando deixa de simplesmente reverenciar esse cinema e começa a corrompê-lo com suas próprias obsessões. “O Fim da Rua” funciona melhor quando parece uma lembrança de infância sendo lentamente transformada em pesadelo. E talvez sua maior frustração esteja justamente nisso: durante boa parte do filme, David Robert Mitchell mostra que ainda existem caminhos interessantes para um gênero que Hollywood insiste em reciclar. Quando finalmente encontra um deles, porém, o próprio filme parece ter medo de segui-lo até o fim.

Confira o trailer:

🍿 Filme: O Fim de Rua (The End of Oak Street)
📺 Onde assistir: Cinema
Nota: ✱ ✱ ✱ – (7.5/10) Muito bom

Direção: David Robert Mitchell

2026 ‧ Ficção científica/Terror ‧ 1h 40m

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