
O terror é um dos gêneros mais interessantes do cinema justamente porque não se limita a uma única estrutura. Muita gente ainda acredita que um filme só pode ser chamado de terror se envolver fantasmas, demônios ou algum elemento sobrenatural, mas a verdade é que esse gênero sempre encontrou diferentes formas de provocar medo. Ele pode surgir de um serial killer, de um vampiro, de uma assombração ou simplesmente de conflitos humanos capazes de nos causar angústia. Se nos anos 1980 os assassinos mascarados dominavam as telas, hoje vemos um espaço cada vez maior para o terror psicológico. Filmes como “Obsessão” e “Leviticus” se destacam justamente por transformar questões profundamente humanas em horror. Dependência emocional, relacionamentos abusivos e o preconceito enraizado em determinadas estruturas familiares continuam fazendo parte da nossa sociedade, e é exatamente nesse terreno que “Leviticus” constrói sua história.
Escrito e dirigido por Adrian Chiarella, “Leviticus” é um terror sobrenatural australiano que também funciona como um drama de amadurecimento e uma história de amor. A trama acompanha dois adolescentes completamente apaixonados. Quando suas famílias descobrem a orientação sexual dos dois, decidem submetê-los a uma espécie de terapia de conversão, acreditando que existe um mal dentro deles que precisa ser expulso. O ritual, porém, desperta uma entidade aterrorizante, capaz de assumir a forma da pessoa que você mais deseja. A partir daí, o horror toma conta da narrativa.
A escolha do título “Leviticus” está longe de ser aleatória. O livro bíblico de Levítico reúne leis que atravessaram séculos e ajudaram a sustentar interpretações religiosas que condenam relações entre pessoas do mesmo sexo. Independentemente das discussões sobre o contexto histórico em que esses textos foram escritos, é inegável que eles foram — e ainda são — utilizados por diferentes grupos para justificar preconceito, repressão e até tentativas de “cura gay”. O filme parte justamente desse imaginário. Em vez de transformar a religião em alvo, ele mostra como uma fé baseada no medo e na leitura literal dessas passagens pode destruir famílias, sufocar identidades e alimentar ciclos de violência.
Ao adotar esse título, “Leviticus” não parece apenas fazer referência ao livro bíblico, mas ao impacto que determinadas interpretações dele tiveram — e continuam tendo — sobre a vida de inúmeras pessoas LGBTQIA+. Essa ideia fica ainda mais evidente em uma das falas de Arlene, personagem de Mia Wasikowska, quando ela diz ao filho Naim (Joe Bird) que o medo é necessário e que, para sobreviver, é preciso ter medo.
É uma frase que resume perfeitamente a lógica que move aquela família: uma fé construída muito mais sobre o temor do que sobre o acolhimento. Assim como em parte das leis presentes em Levítico, o medo passa a ser tratado como instrumento de disciplina e controle. Alienada por essa visão, Arlene acredita que está salvando o próprio filho, sem perceber que sua devoção cega a leva justamente a destruir aquilo que deveria proteger.
Acho muito interessante como o filme transforma a terapia de conversão e o preconceito em uma metáfora de horror sem jamais perder de vista a humanidade dos personagens. A entidade sobrenatural não existe apenas para provocar sustos; ela materializa o trauma, a culpa e o medo impostos a esses jovens por quem deveria acolhê-los. É uma forma inteligente de mostrar como cada pessoa reage à pressão familiar e à tentativa cruel de moldá-la para caber naquilo que outros consideram normal.
Esse terror ganha força graças à direção de Adrian Chiarella, que entende que o medo nem sempre nasce do barulho ou do susto fácil. Ele surge nos silêncios, nos olhares e na maneira como a câmera percorre lentamente os ambientes antes de revelar o perigo. Existe uma ideia especialmente perturbadora no centro do filme: imaginar que você pode ser obrigado a rejeitar justamente a pessoa que ama por não saber se ela ainda é ela mesma ou se uma entidade assumiu sua aparência. Esse conceito, por si só, já seria suficiente para criar tensão, mas ele só funciona porque é sustentado por uma direção cuidadosa e pelas excelentes atuações de Joe Bird (“Fale Comigo”) e Stacy Clausen.
Falando no elenco, além da ótima Mia Wasikowska (“Segredos de Sangue”), que interpreta uma mãe profundamente religiosa e incapaz de enxergar qualquer realidade que desafie suas próprias convicções, os estreantes Joe Bird e Stacy Clausen também entregam um trabalho bastante convincente. Os dois têm uma química excelente em cena, que faz com que a gente compre completamente aquele relacionamento. Mesmo quando um deles toma decisões covardes e egoístas, o carisma do casal é tão grande que continuamos torcendo para que consigam escapar daquele ciclo de violência e finalmente encontrem paz, seja juntos ou separados. Adrian Chiarella demonstra um enorme bom gosto ao conduzir sequências de paixão ardente sem qualquer apelo visual gratuito. Em vez de explorar os corpos dos personagens, a câmera privilegia seus rostos, os cabelos sendo iluminados pela luz externa e os reflexos numa cena que acontece dentro vidro de um ônibus, transmitindo toda a intensidade da paixão entre eles sem precisar recorrer ao uma abordagem visual mais apelativa.
Outro mérito do roteiro é não perder tempo explicando detalhadamente o funcionamento da entidade. O filme entende que o sobrenatural não é o verdadeiro centro da história, mas sim a metáfora que ele representa. Basta imaginar aqueles personagens sem a presença do horror para perceber que o terror continua existindo. Jovens submetidos à repressão, obrigados a negar quem são para atender às expectativas da própria família, infelizmente fazem parte da realidade. A entidade apenas transforma essa dor psicológica em horror visual. O sofrimento interno ganha forma física, e o filme traduz essa violência emocional em imagens perturbadoras que afetam tanto o corpo quanto a mente. Não por acaso, alguns dos momentos mais angustiantes surgem justamente quando o longa abraça o horror corporal.
“Leviticus” consegue reunir uma temática extremamente relevante, ótimos atores, uma fotografia que alterna delicadeza e inquietação e uma direção segura, que sabe exatamente quando criar tensão e quando deixar o silêncio falar por si. Mais do que contar uma história sobre uma entidade sobrenatural, o filme fala sobre o medo de não poder existir como você realmente é. E, no fim das contas, reforça uma das maiores qualidades do gênero: lembrar que, muitas vezes, o verdadeiro terror não nasce do sobrenatural, mas das escolhas humanas. Afinal, monstros podem ser assustadores, mas poucas coisas causam tanto medo quanto o preconceito quando ele se disfarça de amor, proteção ou fé.
Confira o trailer:
🍿 Filme: Leviticus
📺 Onde assistir: Stremio
Nota: ✱ ✱ ✱ ✱ – (8.0/10) Ótimo
Direção: Adrian Chiarella
2026 ‧ Romance/Terror ‧ 1h 28m